31 março, 2009

Confissão individual ou comunitária?




O Código de Direito Canónico estabelece: "A confissão individual e integra e a absolvição constituem o único modo ordinário... somente a impossibilidade fisica ou moral o escusa desta forma de confissão" (c. 960).
Quanto à chamada "absolvição geral", o cânon 961 do Código de Direito canónico prescreve: "A absolvição simultanea a vários penitentes sem confissão individual prévia não pode dar-se de modo geral, a não ser que:
- 1º esteja iminente o perigo de morte...
- 2º haja necesidade grave...
E acrescenta que compete a Bispo Diocesano, de acordo com os critérios fixados pela Conferência Episcopal, "ajuizar acerca da existência das condições requeridas no § 1, nº 2".

30 março, 2009

SENHOR, quero ver Jesus

Faz, Senhor,
que reconheça
o teu rosto no rosto dos mais pobres.
Dá-me olhos para ver os caminhos
da justiça e da solidariedade;
dá-me ouvidos para escutar
os pedidos de salvação e de saúde;
enriquece o meu coração
de fidelidade generosa
para que me faça
companheiro de caminhada
e testemunha verdadeira
e sincera da glória, que
resplandece no crucificado,
ressuscitado e vitorioso.

"Queríamos ver Jesus"

Alguns gregos, que eram crentes no Deus de Israel e se encontravam em Jerusalém para participar na festa da Páscoa, sabendo que Jesus tb se encontrava lá, manifestam o desejo de O ver. Sentiam curiosidade e interesse de O conhecerem pessoalmente. Como não se sentiam muito à vontade para se chegarem junto de Jesus, solicitam a mediação de Filipe (um discípulo que eles conheciam, pois não querem perder aquela oportunidade).

“Queríamos ver Jesus, dizem eles”. E eu pergunto:
  • O que é que eles mesmo querem e esperam de Jesus? Quererão mesmo conhecer Jesus, quem Ele é, qual a sua missão, que mensagem tem para comunicar aos homens?
  • Ou apenas o querem ver, testemunhar alguma obra extraordinária, escutar alguma parábola encantadora?
  • Procuram Jesus, porque suspeitam que Ele tem algo de especial para comunicar aos homens, também a eles, apesar de serem gregos? Ou apenas para puderem dizer, no regresso às suas terras, que O tinham visto e estado com Ele?

O evangelho não responde a estas perguntas, mas as perguntas valem para nos fazer pensar a nós!

Jesus é informado da presença dos gregos e do seu interesse em encontrarem-se com Ele. Porém, Jesus parece não lhes dar muita atenção. Começa, de imediato, a falar do mistério da sua paixão e morte. À primeira vista, não parece ser o tema mais adequado para atrair e cativar os seus novos ouvintes. Pareceria mais razoável que lhes dirigisse umas palavras afáveis ou realizasse alguma obra vistosa. Mas não.
Jesus, consciente de que não pode perder tempo com banalidades nem usar o seu poder divino para divertir os homens, centra-se na sua morte (Esta faz parte integrante da sua missão e é particularmente vantajosa para o homem, pois gerará uma nova vida e uma vida em abundância para toda a humanidade).
Para se fazer entender mais facilmente, Jesus usa a imagem da semente. Uma vez lançada à terra, esta só produz fruto, se morrer. A natureza ensina que a morte é necessária para que a vida continue (para que surja uma nova vida, para que a semente sobreviva numa nova planta e se multiplique em muitos frutos).
A morte não aparece como oposição ou negação da vida, mas como algo necessário ao serviço de uma vida superior.

Jesus morre para vencer o pecado e a morte do homem, para que o homem não morra para sempre, mas, antes, tenha nele a vida eterna.
Jesus morre para não ficar sozinho, como a semente que não morre. Morre para que, uma vez “elevado da terra”, possa atrair muitos a si (para que muitos possam encontrar nele a salvação de Deus).

Jesus sabia que aqueles gregos nunca mais iriam estar com Ele. Por isso mesmo, e para que não dessem por perdido aquele encontro, falou-lhes da sua morte como caminho para a vida eterna dos homens. (Isto é o que melhor revela Jesus, o que justifica e compensa que as pessoas O procurem, O conheçam, acreditem nele e O sigam). Afinal, Jesus prestou uma especial atenção aos gregos, correspondendo, da melhor maneira, à sua curiosidade!

Em Jesus, que morre voluntariamente na cruz, Deus realiza a nova aliança, prometida e anunciada por meio do profeta Jeremias.
Jesus, derramando o seu sangue por amor, redime o ho-mem, purifica o seu coração, torna-o capaz de viver a nova lei do amor. Por meio de Jesus, Deus imprime a sua lei no íntimo da nossa alma e grava-a no nosso coração, e nós aprendemos a conhecê-lo.
Na última Ceia, ao instituir o sacramento da Eucaristia, Jesus confirma que a nova aliança de Deus (a qual abrange toda a humanidade e não só o povo de Israel) é estabelecida no seu sangue. “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós” (Lc).

“Queríamos ver Jesus”.
Nós, os que aqui nos encontramos reunidos em seu nome, queremos, realmente, ver e conhecer Jesus? Queremos conhecer quem é e qual é a sua missão?

Não será que queremos conhecer apenas o Jesus:

  • do presépio, dos pastores de Belém e dos Magos do oriente;
  • que sacia as multidões, que cura os doentes e expulsa os demónios;
  • das parábolas encantadoras e o amigo das crianças;
  • que caminha sobre a água e acalma as tempestades;
  • que toma refeições em casa das pessoas e convive com elas?

Ou será que queremos, efectivamente, conhecer tb o Jesus que:

  • anuncia o reino de Deus e exorta os homens ao arrependimento e à conversão;
  • pede que renunciemos a nós mesmos e tomemos a nossa cruz de cada dia;
  • exige que amemos os nossos inimigos e perdoemos sempre a quem nos ofende;
  • nos diz que a grandeza do homem está no servir e dar a vida;
  • da paixão e da morte, da ressurreição e da vida eterna?

Queremos ver e conhecer Jesus, para acreditar nele, entrar na sua intimidade, O acolher na nossa vida, e segui-lo todos os dias? Temos consciência de que só Ele nos pode ajudar a entender a nossa vida e a vencer a nossa morte?
Se o nosso querer é sincero, então aproximemo-nos dele e escutemo-lo na Palavra do Evangelho; procuremo-lo e acolhamo-lo nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia dominical (comunhão); dialoguemos com Ele na oração; vamos ao seu encontro e amemo-lo nos irmãos necessitados.

Queres ver Jesus para aprenderes com Ele a morrer? É o que Jesus tem de mais importante para te ensinar – e só Ele te pode ensinar - e o que tu tens mais necessidade de aprender.
É necessário saber morrer, perder a vida, gastá-la ao serviço dos irmãos. A morte que gera vida e produz frutos de vida eterna é a vida que se morre, amando os outros. A morte que salva, a morte que dá sentido à vida, é a da vida que se gasta ao serviço dos irmãos.
Quem não sabe morrer assim, quem vive só para si mesmo, esse fica só, a sua vida é inútil, não aproveita a ninguém. Morrer por amor em cada dia ajuda-nos a entender e a aceitar melhor a outra morte.
Mais, ajuda-nos a viver em paz e a ser felizes.

24 março, 2009

"Para que todo o homem que acredita n'ele tenha a vida eterna"

Desde o início da sua vida pública, Jesus manifesta ter clara consciência de que a sua missão consiste em vencer o pecado e a morte, a fim de garantir ao homem a ressurreição e a vida eterna. A sua vinda ao mundo homens não tem outra motivação nem outro objectivo. Jesus, ao longo de todo o seu ministério, tem sempre nos seus horizontes o mistério da sua morte e ressurreição.
Desde logo, vencendo as tentações do diabo, Jesus aponta para a vitória definitiva sobre o pecado, que Ele alcançará na cruz. Depois, transfigurando-se no Monte Tabor, Jesus revela antecipadamente a sua ressurreição e que esta constituirá a vitória definitiva sobre a morte.
Por sua vez, no contexto da expulsão dos vendilhões do templo de Jerusalém e para provar que tem autoridade para agir deste modo, Jesus dá este sinal aos judeus: “Destruí este templo e em três dias o levantarei”. Jesus está a pensar no templo do seu corpo que os judeus destruirão, dando-lhe a morte, e que Ele levantará, ressuscitando ao terceiro dia. A morte e a ressurreição de Jesus, para além de garantirem a ressurreição dos mortos, marcam o início de um novo culto, um culto sem aproveitamentos humanos, um culto sem comércio nem negócios, um culto sem sacrifícios nem holocaustos. Antes, um culto em que o homem se relaciona com Deus na base da verdade e do amor.
No diálogo com Nicodemos, partindo do episódio e usando a imagem da serpente de bronze, Jesus fala da sua morte na cruz como algo de absolutamente necessário para que o homem alcance a vida eterna. “Também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha nele a vida eterna”. Jesus enquadra o mistério (o escândalo e a loucura da cruz) no âmbito do amor de Deus pelos homens. “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita nele não pereça, mas tenha a vida eterna”.
Só a loucura do amor de Deus – loucura de um Deus que não consegue imaginar-se a viver sem o homem - permite compreender a loucura da cruz de Cristo. E só quem acredita na loucura deste amor - amor exclusivamente ao serviço do homem – terá a vida eterna.
Jesus aceita ser elevado na cruz, dar esta prova extrema de amor, pagar um preço tão elevado, para que o homem possa viver eternamente com Deus!

A morte e a ressurreição de Jesus, enquanto garantem a ressurreição e vida eterna do homem, constituem o fundamento e a razão última da nossa fé vida cristã. Na verdade, acreditamos e compensa acreditar em Deus porque Ele, por meio de Jesus, dá uma resposta, plenamente esclarecedora e convincente, às questões fundamentais da nossa vida, entre as quais sobressai a que se refere ao mistério da morte. Sim, Deus convence-nos a acreditar nele e a segui-lo, porque, em Jesus Cristo, garante-nos o que nós mais desejamos e ninguém mais nos pode dar: a vida eterna.
Mas estão os homens interessados em conhecer este Deus ou dispostos a acreditar nele? São sensíveis às evidências de Deus no mundo criado ou estão preparados para captar a presença e a acção de Deus na história da humanidade? Estão os homens suficientemente despertos, existencial e espiritualmente, para sonharem e acolherem o mais além de Deus?

Alguns homens – hoje menos do que num passado recente – negam a existência de Deus (os ateus). Defendem que o mundo é obra do acaso e o homem é apenas o produto mais evoluído da matéria. Como conseguirão eles entender que o “Senhor Acaso” tenha dado origem a um mundo tão extraordinariamente admirável na sua grandeza, ordem e beleza? E como conseguirão convencer-se de que o homem – um ser que pensa e é consciente da sua existência, um ser livre e capaz de gerir o próprio mundo, um ser que ama e, por isso mesmo, capaz de múltiplas relações pessoais, um ser que sonha e, por conseguinte, capaz de se projectar para além de si mesmo – é apenas o produto final do processo evolutivo da matéria?
O homem não consegue entender o mundo e entender-se a si mesmo sem Deus. E quem pensa o contrário, não pensa, porque, se pensasse seriamente, não pensaria assim. O mundo e o homem sem Deus, seria como que um extraordinário Euromilhões sem apostadores, ou seja, um absurdo. Sem apostadores, nem seria possível calhar a alguém nem sequer haveria “milhões” para dar!
Muitos homens, embora não ponham em causa a existência de Deus, consideram e defendem que Deus não pode ser conhecido nem o homem pode estabelecer com Ele uma relação pessoal (os agnósticos).
Então, o artista não se dá a conhecer e não comunica através da sua obra? E Deus, o mais genial de todos os artistas, não se manifesta e comunica com os homens na obra da criação, além de o fazer também, de um modo pessoal, por meio de seu Filho Jesus Cristo?
Dizem que é impossível,
porque lhes é mais cómodo não ter que contar com Deus
nem ter que lhe prestar contas das suas vidas.
Dizem, mas não podem estar convencidos do que dizem!
A maior parte dos homens – os filhos da sociedade de consumo – têm como seu deus o bem-estar material e o gozar a vida. Completamente alienados da sua própria vida, surdos às suas vozes interiores e sem preocupações existenciais, vivem indiferentes a Deus e esquecem a sua dimensão espiritual. Estes gastam a sua vida, passando ao lado dela; gozam a vida, mas sem jamais se sentirem verdadeiramente felizes!
  • Tu, que te encontras aqui a celebrar o sacramento da morte e ressurreição de Cristo, acreditas realmente na vida eterna?
  • Quando “rezas” o credo, limitas-te a repetir as palavras ou sentes realmente o que dizes: “espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir”?
  • E tens consciência que Jesus é o único Caminho que te pode conduzir a esse mundo de Deus?
  • Estás disposto a seguir Cristo, assumindo o seu Evangelho como programa da tua vida, para alcançares essa vida de Deus?

Seguir Jesus implica abraçar, como Ele, a cruz do amor, porque só esta salva o homem.

  • O amor é cruz, porque exige que renuncies a ti mesmo e venças o teu egoísmo, a fim de viveres para os outros e os servires.
  • O amor é cruz, porque exige verdade e justiça, compreensão e tolerância, compaixão e perdão, partilha e doação da própria vida, e ainda lutar e saber perder em favor do teu semelhante.
  • A tua fé na vida eterna ilumina o presente da tua vida? Inspira os teus sonhos e os teus projectos de futuro? Motiva os teus compromissos pessoais, familiares e sociais? Anima a tua esperança e alarga os teus horizontes?
  • Acreditas na vida eterna ao ponto de apostares nela toda a tua vida? Procura, pois, ser coerente. Não sejas como aquele que não joga e, no entanto, espera que lhe saia a sorte grande! Se, efectivamente, desejas chegar à meta e receber o prémio, percorre o caminho que te leva até lá.

04 março, 2009

O Rapaz do pijama às riscas

Não ganhou nenhum Óscar... não houve nem há muita publicidade...
Porém, é um dos filmes imperdiveis deste ano. É uma verdadeira "história de inocência num mundo de ignorância".

A ignorância e a maldade fizeram com que se cometessem neste mundo muitas atrocidades inegáveis e que nem o tempo nem a vontade apagarão. Por isso mesmo, faz-nos bem recordar estes acontecimentos para procurarmos uma vida diferente e a força para evitarmos no futuro os mesmos problemas e erros irreparáveis.

Não deixem de ler o livro ou ver o filme!!!
Não tenham medo das lágrimas que irão verter...

28 fevereiro, 2009

QUARESMA, PECADO E CONFISSÃO

A quaresma é um tempo especial para a Igreja Católica como caminho de preparação para a grande festa cristã católica- a Páscoa.
O centro de toda a fé cristã é a PÁSCOA: passagem da morte para a vida de Jesus Cristo. Libertação de todos os males humanos. É daí que vem toda a nossa fé, toda a nossa esperança e toda a nossa caridade.
A quaresma é um tempo de preparação interior de libertação e aperfeiçoamento cristão.
Os católicos são convidados a fazer um corte com tudo o que é mau: egoísmo, vícios, defeitos, falhas, pecados. Recorrendo ao sacramento da confissão (ou reconciliação ou penitência), fazendo um propósito firme de emenda para tentar mudar o rumo da sua vida e remediar (compensar) o mal que se fez, caso tenhamos prejudicado alguém.
  • O mais importante não é a abstinência de carne às sextas-feiras da quaresma (cortar com a carne), mas a conversão da alma e do coração, cortar com o pecado, com o que não presta, como se podam nas videiras os ramos que não deixam a árvore dar bom fruto. O sacramento da confissão pode ajudar a essa mudança de vida seguindo os critérios do Reino de Deus.
  • O problema é que hoje, muitos católicos já não sabem o que é pecado e para alguns nada é pecado, tudo é permitido, tudo é lícito, tudo se pode fazer… Perdeu-se a consciência do pecado. O maior pecado da humanidade é ter perdido a noção de pecado.

Segundo o Novo Testamento, o pecado é uma falta de amor em quatro direcções:

  1. Pecado é falta de amor a Deus. Não rezar, não praticar a religião. Faltar à missa ao sábado ou ao domingo. Não dialogar com Deus. Ignorar Deus. Viver como se Deus não existisse, sem a Sua influência na nossa vida.
  2. Pecado é falta de amor aos outros. Palavrão que ofende os outros, indelicadezas, ingratidões, criticar, desobedecer, murmurar, mentir, magoar, insultar, roubar, prejudicar, explorar, abusar, infidelidades sexuais, destruir, vingar-se, odiar, matar.
  3. Pecado é falta de amor a mim mesmo. Palavrão, abusar de comidas, bebidas, vícios e excessos que põem em risco a saúde e a vida nossa e a dos outros, abusar da sexualidade. Estragar, distorcer ou sujar a imagem e semelhança que eu devia ser de Deus e não sou.
  4. Pecado é falta de amor à natureza. Poluição, atentados contra o ambiente, incendiar a natureza.
    Não se trata de uma lista completa, mas apenas muitos exemplos.

PECAR É NÃO AMAR. Falo de AMOR de verdade. Hoje quando se fala em amor, muitos pensam logo em sexo. Quando eu não amo a Deus, não amo os outros, não me amo a mim mesmo e não amo a natureza, estou a pecar.
Claro que o pecado tem graus, como uma ferida pode ser mais ou menos grave.
Pecado venial ou leve, pecado grave e pecado mortal. Diz-se mortal porque corta (mata) a relação com Deus, com os outros, comigo mesmo e com a natureza. Quem começa por pecar de forma venial, se não se corrigir, corre o risco de pecar de forma grave e até mortal. Uma ferida ou sara ou tende a agravar-se e degenerar em cancro e ser mortal. O mesmo se passa no campo da moral. Quem começa com um palavrão ou se corrige, ou vai aumentar. O mesmo se diga de quem rouba, de quem mente, de quem engana, de quem abusa.

Procuremos aproveitar este tempo favorável da quaresma. Aproximemo-nos de um sacerdote reconciliemo-nos, confessemo-nos, façamos um propósito firme de emenda, remendemos o mal feito aos outros (compensando-os ou restituindo se for caso disso) e ficaremos aliviados de tanto lixo que carregamos dentro de nós, que nos intoxica e não nos deixa ter alegria, nem ser felizes. Não nos deixa sermos imagens da beleza, da bondade e da santidade de Deus.

25 fevereiro, 2009

A diocese da Guarda apoia famílias carenciadas e projecto de missão

A Cáritas da Guarda e as Irmãs da Liga dos Servos de Jesus, que iniciam um projecto missionário no Sumbe, em Angola, serão os destinatários da renúncia quaresmal da diocese da Guarda.

O serviço diocesano da Igreja terá por missão ajudar as “famílias vítimas do desemprego e algumas a viverem situações de pobreza envergonhada”.

O bispo diocesano, com vista a uma melhor vivência quaresmal, apela à participação nos “diferentes programas de formação da fé conduzidos por paróquias ou grupos de paróquias” e pede que “em cada arciprestado haja, nesta Quaresma, pelo menos um retiro aberto, com data e lugar atempadamente marcados e anunciados em todas as respectivas paróquias”.

Deixou tudo por causa de Cristo e da Igreja

Nunca vacilou nem desistiu de lutar.
Mesmo no meio das mais graves adversidades, num país desorientado, com traidores a governar, nunca desanimou nem perdeu a esperança. Tinha uma certeza inabalável. A sua identidade de português era inseparável do seu amor a Cristo e à Igreja. E deu a vida por isso.
O carácter de Nun’Alvares Pereira era tão fascinante que, além dos milhares de homens que tinha no seu exército, até o inimigo o respeitava. Um pequeno grupo de castelhanos arriscou mesmo entrar no seu acampamento só para o ver, face a face, tal era a sua fama de santidade! Pelos serviços que prestou, o rei encheu-o de títulos. Era dono de quase metade de Portugal. E merecia-o… Mas a sua nobreza era de outra estirpe, bem maior do que as honras e louvores do mundo. Deixou tudo e fez-se pobre por amor a Cristo. O homem que merecia ser servido, acabou a vida a servir.
O Papa anunciou a data da sua canonização para 26 de Abril. Ou seja, propôs ao mundo – e especialmente aos portugueses - Nun’Alvares como modelo.

Que o novo Santo português nos ajude a combater o bom combate!

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA 2009

“Jesus, após ter jejuado durante 40 dias e 40 noites, por fim, teve fome”(Mt 4, 2)

No início da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia propõe-nos três práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã – a oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar melhor a Páscoa e deste modo fazer experiência do poder de Deus que, como ouviremos na Vigília pascal, «derrota o mal, lava as culpas, restitui a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos. Dissipa o ódio, domina a insensibilidade dos poderosos, promove a concórdia e a paz» (Hino pascal). Na habitual Mensagem quaresmal, gostaria de reflectir este ano em particular sobre o valor e o sentido do jejum. De facto a Quaresma traz à mente os quarenta dias de jejum vividos pelo Senhor no deserto antes de empreender a sua missão pública. Lemos no Evangelho: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado pelo demónio. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome» (Mt 4, 1-2). Como Moisés antes de receber as Tábuas da Lei (cf. Êx 34, 28), como Elias antes de encontrar o Senhor no monte Oreb (cf. 1 Rs 19, 8), assim Jesus rezando e jejuando se preparou para a sua missão, cujo início foi um duro confronto com o tentador.

Podemos perguntar que valor e que sentido tem para nós, cristãos, privar-nos de algo que seria em si bom e útil para o nosso sustento. As Sagradas Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. Por isto, na história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura o Senhor comanda que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: «Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás» (Gn 2, 16-17). Comentando a ordem divina, São Basílio observa que «o jejum foi ordenado no Paraíso», e «o primeiro mandamento neste sentido foi dado a Adão». Portanto, ele conclui: «O "não comas" e, portanto, a lei do jejum e da abstinência» (cf. Sermo de jejunio: PG 31, 163, 98). Dado que todos estamos estorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, o jejum é-nos oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor. Assim fez Esdras antes da viagem de regresso do exílio à Terra Prometida, convidando o povo reunido a jejuar «para nos humilhar – diz – diante do nosso Deus» (8, 21). O Omnipotente ouviu a sua prece e garantiu os seus favores e a sua protecção. O mesmo fizeram os habitantes de Ninive que, sensíveis ao apelo de Jonas ao arrependimento, proclamaram, como testemunho da sua sinceridade, um jejum dizendo: «Quem sabe se Deus não Se arrependerá, e acalmará o ardor da Sua ira, de modo que não pereçamos?» (3, 9). Também então Deus viu as suas obras e os poupou.

No Novo Testamento, Jesus ressalta a razão profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais observaram escrupulosamente as prescrições impostas pela lei, mas o seu coração estava distante de Deus. O verdadeiro jejum, repete também noutras partes o Mestre divino, é antes cumprir a vontade do Pai celeste, o qual «vê no oculto, recompensar-te-á» (Mt 6, 18). Ele próprio dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que «nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum finaliza-se portanto a comer o «verdadeiro alimento», que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor «de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal», com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e misericórdia.

Encontramos a prática do jejum muito presente na primeira comunidade cristã (cf. Act 13, 3; 14, 22; 27, 21; 2 Cor 6, 5). Também os Padres da Igreja falam da força do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do «velho Adão», e de abrir no coração do crente o caminho para Deus. O jejum é também uma prática frequente e recomendada pelos santos de todas as épocas. Escreve São Pedro Crisólogo: «O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benefício o coração de Deus não feche o seu a quem o suplica» (Sermo 43; PL 52, 320.332).

Nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus. Na Constituição apostólica Paenitemini de 1966, o Servo de Deus Paulo VI reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto da chamada de cada cristão a «não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e... também a viver pelos irmãos» (Cf. Cap. I). A Quaresma poderia ser uma ocasião oportuna para retomar as normas contidas na citada Constituição apostólica, valorizando o significado autêntico e perene desta antiga prática penitencial, que pode ajudar-nos a mortificar o nosso egoísmo e a abrir o coração ao amor de Deus e do próximo, primeiro e máximo mandamento da nova Lei e compêndio de todo o Evangelho (cf. Mt 22, 34-40).

A prática fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. Santo Agostinho, que conhecia bem as próprias inclinações negativas e as definia «nó complicado e emaranhado» (Confissões, II, 10.18), no seu tratado A utilidade do jejum, escrevia: «Certamente é um suplício que me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcançar o agrado da sua doçura» (Sermo 400, 3, 3: L 40, 708). Privar-se do sustento material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposição para ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salvação. Com o jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus.

Ao mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos. Na sua Primeira Carta São João admoesta: «Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de Deus?» (3, 17). Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade não nos é indiferente. Precisamente para manter viva esta atitude de acolhimento e de atenção para com os irmãos, encorajo as paróquias e todas as outras comunidades a intensificar na Quaresma a prática do jejum pessoal e comunitário, cultivando de igual modo a escuta da Palavra de Deus, a oração e a esmola. Foi este, desde o início o estilo da comunidade cristã, na qual eram feitas colectas especiais (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27), e os irmãos eram convidados a dar aos pobres quanto, graças ao jejum, tinham poupado (cf. Didascalia Ap., V, 20, 18). Também hoje esta prática deve ser redescoberta e encorajada, sobretudo durante o tempo litúrgico quaresmal.

De quanto disse sobressai com grande clareza que o jejum representa uma prática ascética importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer eventual apego desordenado a nós mesmos. Privar-se voluntariamente do prazer dos alimentos e de outros bens materiais, ajuda o discípulo de Cristo a controlar os apetites da natureza fragilizada pela culpa da origem, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana. Exorta oportunamente um antigo hino litúrgico quaresmal: «Utamur ergo parcius, / verbis, cibis et potibus, / somno, iocis et arcitius / perstemus in custodia – Usemos de modo mais sóbrio palavras, alimentos, bebidas, sono e jogos, e permaneçamos mais atentamente vigilantes».

Queridos irmãos e irmãos, considerando bem, o jejum tem como sua finalidade última ajudar cada um de nós, como escrevia o Servo de Deus Papa João Paulo II, a fazer dom total de si a Deus (cf. Enc. Veritatis splendor, 21). A Quaresma seja portanto valorizada em cada família e em cada comunidade cristã para afastar tudo o que distrai o espírito e para intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do próximo. Penso em particular num maior compromisso na oração, na lectio divina, no recurso ao Sacramento da Reconciliação e na participação activa na Eucaristia, sobretudo na Santa Missa dominical. Com esta disposição interior entremos no clima penitencial da Quaresma. Acompanhe-nos a Bem-Aventurada Virgem Maria, Causa nostrae laetitiae, e ampare-nos no esforço de libertar o nosso coração da escravidão do pecado para o tornar cada vez mais «tabernáculo vivo de Deus». Com estes votos, ao garantir a minha oração para que cada crente e comunidade eclesial percorra um proveitoso itinerário quaresmal, concedo de coração a todos a Bênção Apostólica.

BENEDICTUS PP. XVI

13 fevereiro, 2009

Que ganha Deus se formos à Igreja?

Claro que Deus não precisa da nossa oração pecadora; no entanto, pelo seu amor por nós, gosta que oremos. Mas não é apenas a sagrada oração, que o próprio Espírito Santo é capaz de trazer até nós, que lhe é agradável, mas cada pensamento em sua glória. Ele exige: Estai em Mim e Eu em vós (Jo 15,4).
Todas as acções por mais pequenas que sejam, feitas em seu louvor, cada intenção, cada pensamento dirigidos à sua glória, para nossa salvação, são apreciadas por ele. Seremos generosamente recompensados por ele, por toda esta misericórdia infinita.


O amor de Deus dá mil vezes mais recompensa
que as acções do homem merecem.


Se lhe deres uma pequena moeda, ele dar-te-á ouro.
Se tiveres a intenção de ir ter com o Pai, Ele virá ao teu encontro.
Diz estas palavras curtas e secas "Aceita-me! Tem piedade de mim!".
Ele ouvir-te-á e amar-te-á.
Nós não somos merecedores deste amor do Pai Celestial.
Ele fica satisfeito com qualquer pequeno gesto
que nós façamos, para a nossa salvação.
Pensamos: "Que glória há nisto?
Que benefício se obtém se rezarmos um pouco, e logo nos distrairmos?
Que benefício tiramos em fazer uma boa acção, como por exemplo, ler qualquer oração, fazer cinco ou seis vénias, suspirar do coração, pronunciar o nome de Jesus Cristo, apercebermo-nos de um bom pensamento, tencionarmos ler um qualquer texto sobre a salvação da alma, abstermo-nos de comer, ou sofrermos uma ofensa em silêncio?"

Tudo isto nos parece de pouca importância para a salvação da nossa alma e estas acções parecer-nos-ão infrutíferas, Não! Nenhuma destas pequenas acções é vã. Todas elas serão observadas pelo olhar de Deus, que tudo vê, e seremos recompensados, não só na eternidade, mas também nesta vida.

São João Crisóstomo afirma: "Qualquer boa acção, por mais insignificante que seja, não será menosprezada no Juízo Final. Se os pecadores são examinados em pormenor, se temos de responder pelas palavras, desejos e sonhos, então, quanto melhores forem as acções, por mais pequenas que sejam, mais elas serão tidas em consideração e pesarão a nosso favor, quando nos encontrarmos frente ao Juiz, pleno de amor!"

Fonte: Relatos de um peregrino russo ao seu pai espiritual)

08 fevereiro, 2009

O QUE OS NOIVOS DEVEM SABER - IMPEDIMENTOS QUE INVALIDAM O MATRIMÓNIO

Quais são os impedimentos? Existem doze.
O impedimento derimente torna a pessoa inábil para contrair validamente o matrimónio

1. A idade: o matrimónio não é válido se o homem não tiver 16 anos cumpridos e a mulher 14. As Conferências episcopais podem estabelecer uma idade mais avançada (cân. 1083); os pastores de almas devem tentar impedir o matrimónio de jovens antes da idade habitualmente aceite na região (cân. 1072). A Conferência Episcopal Portuguesa fixou a idade dos 16 anos tanto para o homem como para a mulher. Trata-se de um impedimento de direito humano. Daí que haja lugar para a sua dispensa.

2. A impotência para realizar o acto conjugal (e não a esterilidade), se ela for antecedente e perpétua. Em caso de dúvida, não se pode impedir o matrimónio (cân. 1084). A impotência é a incapacidade para realizar o acto conjugal, isto é a incapacidade de realizar a cópula com todos os seus elementos essenciais, tal como estão configurados pela natureza. É elemento essencial da cópula que se dê , de maneira suficientemente completa, o acto de transmissão que, de per si, está ordenado à fecundação; isto é, que faz parte do processo natural generativo. A potência sexual, como capacidade jurídica, é reconduzida à capacidade de transmitir o líquido seminal, independentemente da sua composição, normal ou defeituosa. Tem de haver ejaculação. A impotência, assim entendida, invalida quando é antecedente ao casamento, perpétua (incurável por meios ordinários, lícitos e não perigosos para a vida ou prejudiciais para a saúde) e certa. A esterilidade afecta não o acto sexual mas a gestação da prole. Por isso não constitui impedimento a não ser que a fecundação tenha sido posta como condição no consentimento matrimonial.

3. O vínculo de um matrimónio anterior, mesmo não consumado (cân. 1085). Este impedimento existe igualmente quando se trata de não católicos que tenham contraído matrimónio civil entre si. Mesmo que se tenham divorciado, a sua união é, até prova em contrário, considerada válida, e nenhum deles pode contrair validamente matrimónio perante a Igreja católica. Este impedimento não pode cessar logicamente por dispensa. Cessa pela morte de um dos cônjuges ou por algumas das formas de dissolução previstas na legislação canónica.

4. A disparidade de culto. Este termo não se encontra no Código, quer dizer que é nulo o matrimónio entre duas pessoas das quais uma não é baptizada e a outra foi baptizada na Igreja católica ou nela recebida e não a tenha formalmente abandonado (cân. 1086). Como o não baptizado continua a ter um direito fundamental a contrair matrimónio, há a possibilidade de dispensa, se se cumprem determinadas condições.

5. A Ordem sagrada (cân. 1087), após a recepção do diaconado. Este impedimento aplica-se também ao diácono permanente que tenha enviuvado. A dispensa está reservada à Santa Sé.

6. Os votos religiosos, quando se trata de voto público e perpétuo de castidade num instituto religioso (cân. 1088). A dispensa está reservada à Santa Sé.

7. O rapto: nenhum matrimónio pode existir entre o homem que rapta e a mulher raptada ou apenas detida, até que, libertada, ela consinta espontaneamente nessa união (cân. 1089). Deve tratar-se de um varão raptor e de uma mulher raptada, e não a situação inversa. A acção pode consistir tanto na condução ou transferência da mulher, contra a sua vontade, para outro lugar, como na retenção violenta no lugar em que já se achava. Tem de existir a intenção de contrair matrimónio. Cessa o impedimento pela separação da mulher do seu raptor e pela constituição da mulher em lugar seguro.

8. O conjugicídio ou assassínio do cônjuge incómodo, perpetrado por um só ou por entendimento dos dois futuros cônjuges (cân. 1090).

9. A consanguinidade ou parentesco natural, torna nulo qualquer matrimónio em linha recta e, na linha colateral, até ao 4.º grau, o que, na nova maneira de contar os graus de parentesco, se aplica aos primos-irmãos ou ao caso menos provável de um casamento entre tio-avô e sobrinha-neta (tia-avó e sobrinho-neto) (cân. 1091). É sempre impedimento na linha recta (pais, filhos, netos, bisnetos...); na linha colateral, até ao quarto grau inclusivé (primos direitos): existe sempre impedimento entre irmãos (2º grau), entre tios e sobrinhos (3º grau), entre primos direitos (4º grau). A dispensa compete ao Ordinário, mas não se dispensa nunca na linha recta nem em segundo grau da linha colateral (irmãos).

10. A afinidade ou parentesco por aliança torna nulo o matrimónio em todos os graus da linha recta (cân. 1092). Só é impedimento na linha recta. Na colateral até pode ser aceite pois «com muita frequência o casamento entre afins é a melhor solução para a prole que porventura se tenha tido no primeiro casamento». A dispensa compete ao Ordinário.

11. A honestidade pública, que nasce de um matrimónio inválido após instauração da vida comum ou de um concubinato público ou notório, torna nulo o matrimónio no 1.º grau da linha recta entre o homem e as consanguíneas da mulher: sua mãe ou sua filha e vice-versa (cân. 1093). Pode ser dispensada pelo Ordinário, tendo em conta o cân.1091§4. Nunca se permite o matrimónio, enquanto subsistir dúvida sobre se as partes são consanguíneas em algum grau da linha recta ou em segundo grau da linha colateral.

12. O parentesco legal originado pela adopção torna nulo o matrimónio em linha recta (por exemplo, adoptando e adoptada) ou no segundo grau da linha colateral (por exemplo, entre filhos adoptados ou filho legítimo com filho adoptado).

O QUE OS NOIVOS DEVEM SABER - CAUSAS PELA QUAL UM MATRIMÓNIO PODE SER NULO

Visto que o matrimónio assenta no consentimento das partes, são incapazes de contrair matrimónio:

1. Aqueles que não gozam de suficiente uso da razão. Ou seja, aqueles que, afectados por uma doença mental, estão privados, no momento de prestar o consentimento matrimonial, do uso expedito das suas faculdades intelectivas e volitivas imprescindíveis para emitir um acto humano. Consideram-se também neste caso aqueles que, no momento de consentir, sofrem de uma tal perturbação psíquica (estados tóxicos, drogados, alcoólicos, sonambulismo, hipnose) que, quer constitua doença mental ou não, em qualquer caso provoca neles uma falta de posse de si e do uso das suas faculdades intelectivas e volitivas, equiparável em direito à falta de suficiente uso da razão.

2. Aqueles que sofrem de grave falta de discernimento para apreciarem os direitos e os deveres essenciais do matrimónio, que os cônjuges devem dar e receber mutuamente. Refere-se ao grau de maturidade pessoal que permite ao contraente discernir para se comprometer acerca dos direitos e deveres fundamentais do matrimónio. O decisivo não é tanto a doença ou transtorno psíquico, que gerou o defeito grave, quanto o facto de o ter produzido efectivamente.

3. Aqueles que, por motivos de natureza psíquica, não podem assumir as obrigações essenciais do matrimónio (cân. 1095). Carece da posse ou domínio de si necessários para encarregar-se e responder das obrigações matrimoniais essenciais.


A validade do consentimento matrimonial pode ser afectada:

1. Pela ignorância que incide sobre a própria natureza do matrimónio, sociedade permanente entre o homem e a mulher, com vista à procriação de filhos por uma cooperação carnal. Esta ignorância não se presume depois da puberdade (cân. 1096);

2. Pelo erro, quer acerca da pessoa (quando o contraente, querendo casar-se com uma pessoa certa e determinada, se casa por erro com outra distinta) quer acerca de uma qualidade da pessoa que tenha sido directa e principalmente pretendida (cân. 1097). Se o objecto do erro padecido por um contraente são qualidades que julga que adornam o outro, ainda que a falsa apreciação das mesmas tivesse sido a razão que motivou o seu propósito de contrair, o matrimónio é válido. O erro acerca duma qualidade invalida o matrimónio quando tal qualidade, falsamente avaliada, tenha sido directa e principalmente pretendida. O determinante desta figura não é a importância objectiva da qualidade, mas que tenha sido directa e principalmente pretendida. Exemplo: Queria casar, na presunção de que o meu marido é arquitecto... mas não é... Isso não invalida. Só invalida se essa qualidade fosse directa e principalmente pretendida.

3. Pelo dolo ou engano, perpetrados para obter o consentimento e incidindo sobre uma qualidade que pela sua natureza comprometa gravemente a comunidade de vida conjugal (cân. 1098). Por exemplo, a esterilidade, que foi ocultada propositadamente, ainda que essa qualidade não fosse pretendida directa e principalmente.

4. Pela exclusão voluntária de um elemento essencial ou de uma propriedade essencial do matrimónio, por exemplo a exclusão da fidelidade, unidade ou da indissolubilidade (mas não o simples erro que não determinasse a vontade) e a exclusão da prole (quando se exclui para sempre). Se esta exclusão da prole afecta os actos de si aptos à gestação, ainda que esta exclusão seja por algum tempo, invalida, pois este direito deve ser perpétuo e exclusivo.

5. Por uma condição aposta ao consentimento (cân. 1102); não se pode contrair validamente matrimónio sob condição de um facto futuro. Pode haver condições quanto ao passado e presente. Esta condição não se pode apôr licitamente a não ser com licença do Ordinário do lugar, dada por escrito. O matrimónio é válido ou nulo segundo se verifique ou não a existência ou não do facto ou acontecimento que é objecto da condição.

6. Pela violência ou medo que impõem o matrimónio (cân. 1103).

O consentimento deve ser expresso oralmente pelos esposos, ou por sinais equivalentes, se eles não puderem falar (cân. 1104, § 2). Há casos em que o consentimento pode ser dado por procuração ou por meio de um intérprete (cân. 1105 e 1106).

Em todos os casos, o consentimento interno da alma presume-se conforme com as palavras ou sinais empregados na celebração do matrimónio (cân. 1101, § 1), e presume-se que o consentimento dado persevera até prova da sua revogação, mesmo se o matrimónio for inválido devido a um impedimento ou defeito de forma (cân. 1107).

27 janeiro, 2009

O POVO NA EUCARISTIA

Por muito que se fale do envolvimento da comunidade na Eucaristia, a Missa ainda parece permanecer, ao olhar de muitos, como um exclusivo do padre.

Cabe-lhe, pois, (como elemento constitutivo da sua missão) motivar a assembleia para a plena participação na Eucaristia. Decididamente, o verbo a conjugar, aqui, não é ir ou assistir, mas verdadeiramente participar.

É bom não esquecer que o Vaticano II apresenta a Eucaristia como «a fonte e o ponto mais alto da vida cristã». Ou seja, é o ponto mais alto não apenas da vida presbiteral, mas de toda a vida cristã (de presbíteros e de leigos).

Os fiéis leigos — assinala o Concílio — «concorrem para a oblação da Eucaristia em virtude do seu sacerdócio real. Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela; assim, quer pela oblação quer pela sagrada comunhão, não indiscriminadamente, mas cada um a seu modo, todos tomam parte na acção litúrgica».

O sacerdócio de todos é manifestado e exercitado durante a Missa em dois momentos-chave: a oblação (que é a oferenda e a consagração) e a Comunhão.

Como nos lembra Raniero Cantalamessa, o que Jesus quis dizer com as palavras Fazei isto em memória de Mim (cf. 1Cor 11, 23-26) não foi simplesmente Repeti este rito tal como Eu fiz. Ele quis igualmente dizer Vós, também, deveis fazer tudo o que Eu fiz: também vós deveis oferecer o vosso corpo em sacrifício!

Era isto o que S. Paulo queria dizer quando recomendava aos cristãos que «oferecessem os seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus» (Rom 12, 1) e o que S. João tinha em mente quando disse: «Jesus deu a vida por nós; portanto, nós também devemos dar a vida pelos irmãos» (1Jo 3, 16).

Como é sabido, Jesus ressuscitado é o Cristo total, Cabeça e corpo inseparavelmente unidos. Refere ainda Raniero Cantalamessa: «Dentro do grande “Eu” da Cabeça, o pequeno “Eu” de todo o corpo, que é a Igreja, está contido nela. E dentro disso, por seu lado, existe igualmente o pequenino “eu’ que sou eu, e eu também digo às pessoas que estão perante mim: “tomai e comei, isto é o meu corpo entregue por vós”».

O Padre Raniero Cantalamessa confessa de seguida: «Nunca fecho os meus olhos na consagração, antes olho para as pessoas que estão diante de mim. Ou, se estou só, penso nas pessoas a quem sou chamado a ministrar durante o dia, ou penso na Igreja como um todo. E juntamente com Jesus digo a todos: “tomai e comei, este é o meu corpo” (meu, sim especificamente meu)».

Na verdade, «enquanto sacerdote ordenado, a minha intenção, ao dizer estas palavras, é consagrar o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo; como cristão com os outros cristãos, a minha intenção é consagrar-me a mim próprio juntamente com Cristo».

Todos somos chamados, leigos incluídos, a oferecermo-nos nesse momento juntamente com Cristo! É claro que os irmãos leigos «sabem que estas palavras, como eles as dizem não têm o efeito de tornar o corpo e o sangue de Cristo presente no altar. Eles não agem, naquele momento, como representantes de Cristo (in persona Christi) como o ministro ordenado o faz. Mas eles unem-se a Cristo.

Por isso eles não dizem as palavras da consagração em voz alta, como o padre, mas sussurrando, na quietude dos seus próprios corações».
Fonte aqui

23 janeiro, 2009

O sacramento do baptismo hoje!

Este tema parece-me cada vez mais sério e a necessitar de uma justa e adequada explicação. O Baptismo não é um acto social e muito menos a manifestação de uma superstição. Se há coisa que me faz sofrer enquanto igreja é o modo como muita gente se aproxima deste sacramento e as resoluções e caminhos que alguns sacerdotes apontam para o mesmo... Em síntese vejamos o que é necessário saber:

O que é o Baptismo?

O Baptismo é um sacramento: um sinal visível - a água e as palavras do celebrante .- que, por sua vez, é sinal de uma realidade invisível mas real: o amor e a salvação de Deus.

O Baptismo é o primeiro sacramento. Pelo Baptismo, abrem-se-nos as portas da vida cristã e passamos as fazer parte da Igreja, a comunidade dos que seguem Jesus Cristo.

O Baptismo faz-nos filhos de Deus. Pelo Baptismo, nascemos para uma vida nova e vivemos a felicidade de ter a Deus como Pai.

O Baptismo une-nos a Jesus Cristo, faz de nós seus irmãos, faz-nos participar do seu mistério pascal: morremos com Ele, somos sepultados com Ele e ressuscitamos com Ele. Com Ele passamos da morte do pecado para a Sua vida sem fim.

O Baptismo dá-nos o Espírito Santo que é a luz que nos ilumina, a graça que nos renova, a força que nos impele a viver o Evangelho e a amar todos os homens e mulheres.

Os Padrinhos

Um pouco de história

A instituição dos padrinhos surgiu na Igreja quando se introduziu o costume de baptizar as crianças. Era necessário que alguém, diferente dos pais, e que representasse tanto a família de quem ia ser baptizado, como a comunidade cristã, se responsabilizasse pelo crescimento na fé da criança baptizada.

Critérios na escolha dos padrinhos

Os pais devem levar muito a sério a escolha de bons padrinhos para os seus filhos, para que os padrinhos não se tornem numa instituição de simples formalismo.

Nesta escolha, não se devem guiar apenas por razões de parentesco, amizade ou prestígio pessoal, mas por um desejo sincero de garantir aos filhos que tenham padrinhos capazes de fluir, mais tarde, de modo eficaz, na educação cristã do afilhado.

O número de padrinhos

Cada criança pode ter um só padrinho (homem ou mulher) ou dois (homem e mulher).

Requisitos para ser padrinho
  • Ter completado 16 anos de idade.
  • Ter capacidade para cumprir a missão própria dos padrinhos
  • Ser católico e ter recebido os três sacramentos da iniciação cristã: Baptismo, 1ª Comunhão e Crisma.

Questões práticas a ter em conta antes do Baptismo

A Veste baptismal
- A veste baptismal deve ser branca. O sentido de branco na liturgia tem a ver com a pureza. Pelo Baptismo a criança é incorporada na Igreja e nasce para uma vida nova, a vida da graça. Esse sentido de nova vida traz consigo a pureza interior simbolizada na veste branca que a criança deve trazer.

A vela do Baptismo - Os pais devem adquirir, atempadamente, a vela do baptismo, que só deve ser acendida no Círio Pascal, durante a celebração do Baptismo, e quando lhes for indicado.

Transferências de Baptismo - Quando o Baptismo é realizado numa paróquia exterior à paróquia de residência dos pais da criança, o processo de baptismo deve ser transferido. Os pais devem contactar o seu pároco, pois, o processo desenvolve-se com critérios específicos que devem ser respeitados.
Encontrei isto http://www.vigararia11.org/baptismo.php?mo=12&yr=2008'>aqui

16 janeiro, 2009

Bispo da Guarda deixa uma interrogação aos crismados: «Que fazer depois do Crisma?»

Nos fins-de-semana de Janeiro, D. Manuel Felício encontra-se com os crismados no ano anterior. Depois de constatar que muitos jovens depois de receberem este sacramento da iniciação cristã «fogem», o bispo da Guarda “não quer que eles fujam”.
«Que fazer depois do Crisma?» é a questão que D. Manuel Felício está a propor aos cerca 70% dos jovens que respondem à sua convocatória. Em 2008, D. Manuel Felício crismou cerca de 1000 jovens. “Começamos por indicar o caminho do Departamento da pastoral juvenil para que a formação não seja interrompida”.

Os jovens são presenteados com palavras de incentivo de D. Manuel Felício, testemunhos de outros jovens e conhecimento de percursos de fé que possam concretizar. “A vivência da fé tem o seu suporte comunitário, sem a qual não é possível andar”.

A preparação para este sacramento e o dia do Crisma está cheia de motivação, mas “depois vem a rotina da vida” por isso mesmo “temos que lembrar aos jovens os compromissos assumidos”.
Fonte: agência ecclesia

10 janeiro, 2009

03 janeiro, 2009

"Nascido de uma mulher"

O Filho de Deus fez-se homem no seio de uma mulher! E Maria é a mulher na qual se realizou esse mistério. Na verdade, ela concebeu e deu à luz o Filho de Deus, Jesus Cristo. Jesus, o Filho que nasce de Maria, é o Filho de Deus feito homem. Sendo Ele verdadeiro Deus como o Pai e sendo uma única pessoa, Maria é, com toda a justiça, “Mãe de Deus”.
Hoje, oitavo dia do Natal e primeiro dia do Ano Novo, celebramos este mistério admirável: a maternidade divina de Maria! Precisamos de silêncio e de recolhimento interiores para entrar neste mistério e nos maravilharmos com Ele: Maria, uma simples mulher, desempenha esta missão tão divina!
A maternidade divina de Maria não a isenta de todas as limitações e dificuldades humanas. A graça de Deus só por si não garante, automaticamente e como por magia, a compreensão de todos os mistérios divinos e a solução de todos os problemas humanos.
Os evangelhos mostram que Maria nem sempre compreende o que se diz de Jesus nem o que Jesus lhe diz. Nessas circunstâncias, ela guarda as palavras e medita-as no seu coração. A graça de Deus ajuda-a na compreensão da verdade mas não dispensa o seu esforço humano.
Os evangelhos também registam algumas das dificuldades que Maria enfrentou enquanto mãe de Jesus. Ela teve de fugir para o Egipto, juntamente com José, para salvar a vida do Filho, pois Herodes queria matá-lo. Experimentou a angústia da perda do Jesus, quando este decidiu ficar em Jerusalém sem nada lhe dizer. A graça de Deus não impediu que Maria tivesse de enfrentar estas e outras adversidades, mas deu-lhe a capacidade de as superar.
Maria viveu a sua maternidade divina na maior simplicidade e humildade, segundo aquela atitude de serviço que assumiu, no momento da Anunciação, diante do Anjo: Eis a escrava do Senhor”. É como serva, serva cheia da graça e do amor de Deus, que Maria vive a sua maternidade divina. Maria não deve ter partilhado com ninguém esta graça. Com muito probabilidade, durante a sua vida terrena, ninguém, para além de Jesus, considerou e honrou Maria como Mãe de Deus.
Mais tarde, a reflexão, feita a partir dos relatos evangélicos, sobre o mistério da Encarnação do Filho de Deus, levou a Igreja, no Concílio de Éfeso (431), a apresentar como verdade de fé a maternidade divina de Maria. Agora, todo o povo cristão a invoca como a Santa Maria, Mãe de Deus, implorando a sua materna intercessão.

“Deus enviou o seu Filho … para nos tornar seus filhos adoptivos”. Deus, em Jesus, faz de nós seus filhos. Mais, envia ao nosso coração o seu Espírito, para nos capacitar a chamá-lo Pai. Graças á generosidade do seu amor, podemos, com toda a legitimidade, chamar a Deus: “Pai-Nosso”. Este facto mostra até que ponto Deus nos ama e como o seu amor atinge o mais íntimo e a totalidade do nosso ser. Faz pensar que Deus queira ser nosso Pai e nos trate efectivamente como seu filhos!
Este pensar e meditar à luz da fé leva-nos a tomar consciência de que Deus é Pai de todos os homens e, consequentemente, todos os homens são nossos irmãos. Como é importante e necessário meditar, longa e profundamente, nesta verdade, tirando e assumindo todas as suas consequências. O amor que Deus Pai partilha com todos os homens torna-os capazes de se amarem uns aos outros como irmãos!
A fraternidade humana e só ela, quando entendida e vivida à luz do amor de Deus Pai, leva cada homem a reconhecer a igualdade de todos os outros homens e a respeitar os seus direitos. A fraternidade humana impele-nos a querer para os outros o que queremos para nós, motiva-nos a fazer aos outros o que queremos que eles nos façam, a tratá-los do mesmo modo que desejamos ser tratados por eles. Numa palavra, a fraternidade humana universal, que brota da comum filiação divina, é o único caminho que garante a justiça e a paz entre os homens.

Hoje, primeiro dia do Novo Ano, a Igreja convida-nos a reflectir e a rezar pela paz. A paz é, antes de mais, um dom, uma bênção de Deus. A bênção que os sacerdotes do Antigo testamento deviam dar ao povo incluía este voto: “O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz”.
Mas a paz na terra exige também o esforço do homem. Jesus, no Sermão da Montanha, proclama: “Felizes os construtores da paz (os pacificadores), porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Os filhos de Deus, precisamente porque filhos de Deus, têm uma maior responsabilidade e uma capacidade acrescida na construção da paz.
Como dissemos antes, a nossa condição de filhos de Deus, quando tomada a sério, impele-nos e ajuda-nos a considerar os outros como iguais a nós, a amá-los e a respeitá-los, com a mesma dedicação e intensidade, como queremos ser respeitados e amados por eles.
O pior inimigo da paz (da convivência harmoniosa entre os homens) está no mais íntimo de nós e da forma mais entranhada: é o nosso egoísmo. O egoísmo leva-nos a considerar que:
  • somos mais importantes e temos mais direitos do que as outras pessoas;
  • a apropriar-nos do que não nos pertence e a não partilhar o que temos a mais;
  • a não reconhecer os nossos erros nem a perdoar a quem nos ofende;
  • o egoísmo cria preconceitos, fundamenta diferenças e justifica desigualdades;
  • cultiva as aparências, alimenta a inveja e fomenta a vaidade;
  • o egoísmo torna-nos cegos em relação às capacidades e qualidades dos outros e, por conseguinte, impede-nos de as apreciar e de beneficiar delas;
  • o egoísmo leva-nos a usar os outros para satisfazermos os nossos interesses e atingirmos os nossos objectivos. O egoísmo tem, por tudo isso, um potencial ilimitado de conflitualidade e de violência.

Ele está na base de todas as discórdias e guerras.
Neste dia, um pouco por toda a parte, proferem-se discursos ou fazem-se homilias sobre a paz, onde se apresentam as soluções ou remédios considerados necessários e eficazes para que a paz efectivamente aconteça. Com muita facilidade e frequência, os protagonistas dessas intervenções caem na tentação de indicar os remédios que os outros devem tomar, dispensando-se de fazerem o que está ao seu alcance e é sua obrigação, em razão dos lugares que ocupam e das funções que exercem. As suas belas palavras são, depois, desmentidas ou desacreditadas pelo tipo de vida que levam.

  • Falar da luta contra a pobreza como o caminho da paz e, ao mesmo tempo, viver e apresentar-se com o esplendor próprio dos ricos e como se fossem deuses, não bate muito certo com a lógica da humildade de Deus!
  • Defender a justiça, na base da igualdade de todos os homens e, depois, manter e defender tantas formas de desigualdade injustificável no seio da própria Igreja, não bate muito certo com a lógica da justiça de Deus!
  • Exortar os homens a abandonar todo o tipo de ódio e de inimizade, de ambição e competitividade desonesta, de rivalidade e inveja, e, depois, manter estruturas na Igreja que suportam e fomentam todas essas realidades negativas e perturbadoras das relações humanas, não bate bem com a lógica do amor de Deus!

As palavras e as sugestões têm o seu lugar, mas o mais importante é o que nós fazemos para que a paz aconteça na nossa vida e ao redor de nós. A nossa luta deve, pois, centrar-se no nosso egoísmo, atendendo a todas as suas manifestações.
O amor de Deus Pai é o único antídoto capaz de erradicar o vírus poderosíssimo do nosso egoísmo. Só este amor paterno de Deus, quando acolhido no nosso coração, nos capacita para amar aqueles que vivem connosco, amá-los como Ele os ama e quer ser amado neles. Só reconhecendo e respeitando os homens como filhos de Deus e nossos irmãos, seremos verdadeiros construtores da paz e, nessa mesma medida, mereceremos ser chamados filhos de Deus.

Presépios na Aldeia

27 dezembro, 2008

O Natal sem Jesus e de quem desistiu de Deus

“Encontrareis o Menino”.
Mas será fácil encontrar este menino?
Ou melhor, estarão as pessoas interessadas em encontrá-lo, terão curiosidade em conhecê-lo?
No meio de tanta agitação e do aproveitamento comercial que se faz do natal, ainda haverá espaço e tempo, desejo e interesse, disponibilidade interior para procurar, encontrar e acolher o Menino?
Não será que o Natal interessa apenas pelo negócio que se faz, pelas prendas que se dão ou recebem, pelo encontro familiar (este cada vez mais relativizado e esvaído do seu genuíno significado), pelas diversões que se proporcionam e pelas ilusões que se criam?
Quem é que ainda considera Jesus como a razão de ser e a grande prenda do Natal?
Quantas coisas e tantas solicitações, apresentadas e sugeridas a pretexto do Natal, que anestesiam a dimen-são espiritual do homem e o desviam do verdadeiro espírito do Natal!
Quantas coisas, a pretexto do Natal, fazem esquecer Jesus!

Quem consegue abstrair-se de tudo isso, ainda que seja por breves momentos, para contemplar o Menino e, assim, captar a luz da sua vida, da sua verdade e do seu amor?

O Natal sem Jesus e de quem desistiu de Deus,
o Natal das prendas e da sociedade de consumo,
o Natal de quem perdeu a capacidade de sonhar e deixou de acreditar no futuro, cria uma felicidade efémera e ilusória
.
É uma felicidade construída sobre a areia, sem consistência. Uma felicidade que tem como motivação o comodismo e como horizontes a mediocridade!
Uma felicidade que, por isso mesmo, não satisfaz as reais aspirações do homem.
Pior ainda, uma felicidade que, com facilidade e frequentemente, degenera em pessimismo ou mesmo em autodestruição da pessoa humana.

“Encontrareis um Menino”.
Nós ainda conseguimos arranjar tempo, pelo menos neste dia, para encontrar o Menino, ou melhor, para nos encontrarmos com Ele. Nós sabemos que Ele já não se encontra na gruta de Belém, mas sabemos e acreditamos que continua vivo e actuante na sua Igreja.
Esta nossa celebração de Natal é encontro com Jesus, com o mesmo Jesus que nasceu na gruta de Belém. Só na medida em que é encontro com Ele, ela é celebração do Natal de Jesus. Na verdade, Jesus: está presente no meio de nós uma vez que estamos reunidos em seu nome; fala-nos através do Evangelho, que continua a ser, para aqueles que o escutam, Palavra de salvação; oferece-se a nós no Pão da Eucaristia, que continua a ser, para aqueles que o recebem, Pão de vida eterna.

O encontro com Jesus, neste dia mas sobretudo ao longo do ano, server para: captarmos a riqueza da sua vida e o alcance da sua missão; podermos experimentar a alegria do seu nascimento, o dinamismo do seu amor, o sentido da sua verdade; saborearmos como é bom estar com Ele e tê-lo em nós, não pode limitar-se ao encontro do dia de Natal. É indispensável que aconteça todos os dias.
Assim, acolhendo Jesus, deixando-o nascer e viver em nós, ajudaremos outros a encontrá-lo e a maravilharem-se com Ele. E quantos mais formos os que acreditamos em Jesus e O seguimos mais o nosso será um mundo de verdade e de amor, de justiça e de paz, um mundo de homens e mulheres felizes.

23 dezembro, 2008

Querem roubar-Te o Natal, Senhor

Querem roubar-Te o Natal, Senhor.
Querem ficar com a festa,
mas não querem convidar o festejado.

Querem a árvore de Natal, mas esquecem a sua origem;
querem dar e receber presentes,
mas esquecem os que os Magos Te levaram a Belém;
querem cantos de Natal,
mas esquecem os que os Anjos Te cantaram naquela noite abençoada.
Até a São Nicolau o disfarçaram de "pai Natal".

Querem as luzes e o feriado, o peru e as rabanadas;
Querem a Ceia de Natal
mas já não vão à Missa do Galo,
nem Te adoram feito Menino nas palhinhas do Presépio.

Quando se lembram estas coisas e o facto que lhes deu origem
diz-se que "o Natal é todos os dias",
mas não se dispensa esta quadra de consumo e folguedos.

No meio de toda esta confusão deseja-se a paz e a fraternidade,
mas esquecem que só Tu lhes podes dar.

E a culpa de tudo isto ser assim… é também minha
que alinho nesta maneira pouco cristã de celebrar o teu nascimento.

Se desta vez eu der mais a quem tem menos
e comprar menos para quem já tem quase tudo…
se em vez de me cansar a correr de loja em loja
guardar esse tempo para parar diante de Ti…

Se neste Natal fores mesmo Tu a razão da minha festa…
as luzes e os cantos, o peru e as rabanadas, os presentes e a até o Pai Natal
me falarão de Ti e desse gesto infinito do Teu Amor
de teres viindo ao meu encontro nessa noite santa do teu Natal.


Rui Corrêa d'Oliveira