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23 junho, 2012

“Ainda não tendes fé?”


No fim daquele dia, como em tantos outros dias, levantou-se “uma grande tormenta” no mar das Galileia. Jesus dormia e continuou a dormir como se nada de extraordinário e ameaçador estivesse a acontecer à sua volta. Os apóstolos, sobretudo aqueles que tinham sido pescadores naquele mar, conheciam bem o fenómeno e o perigo que representava para eles. Ficaram assustados, receando o pior. Ao mesmo tempo, não compreendem, incomoda-os e intriga-os a atitude de Jesus. Segundo eles, Jesus tem poder e deveria intervir para os salvar. Uma vez que Jesus não toma a iniciativa e a vida deles está mesmo em jogo, acordam-no e censuram-no. Afinal, que Mestre é Ele e que poder é o seu, se não intervém numa situação como esta, em favor dos seus próprios discípulos? Durante aquele dia, Jesus, daquela mesma barca, ensinou a multidão, anunciando a boa Nova do reino de Deus, através de inúmeras parábolas. O Reino é Deus a agir, de um modo mistérios mas eficaz, na vida e no mundo dos homens; é Deus a libertar o homem dos seus medos e de tudo o que o oprime. A tempestade no mar, para além da ameaça que constitui em si mesma, simboliza todas as adversidades que atingem o homem e põem em risco a sua vida. Os judeus acreditavam que só Deus pode dominar as tempestades e devolver ao homem a segurança e tranquilidade. Jesus dorme! A tormenta não o perturba nem o afecta. Não tem qualquer poder sobre Ele. Pelo contrário, Jesus é-lhe superior e tem a capacidade de a dominar. Quando acorda, Jesus confirma essa superioridade, impondo silêncio ao vento e sendo, de imediato, obedecido por ele. Esta acção de Jesus, a vitória sobre a tempestade, coloca-O no âmbito do poder de Deus. Mostra que Deus, através d’Ele, já está a agir e o Reino já está presente entre os homens. E assim corrobora a verdade das parábolas que tinha contado á multidão. “Ainda não tendes fé?” Os apóstolos tiveram medo e pensaram mal de Jesus porque ainda não acreditavam. Precisamente porque não tinham fé, eles não confiaram em Jesus e, consequentemente, ficaram muito assustados. Eles andavam com Jesus, tinham testemunhado algumas curas, tinham escutado as belas parábolas sobre o Reino, mas ainda não tinham descoberto quem era Aquele “que até o vento e o mar Lhe obedecem”. A insegurança e a agitação que eles sentem não resultam tanto da força do vento e das ondas que açoitam a barca nem, muito menos, do facto de Jesus estar a dormir. A verdadeira causa não está fora, mas dentro deles: a falta de fé. “Ainda não tendes fé?” Aquela barca, onde viaja Cristo e os apóstolos, foi vista como uma imagem da Igreja. Por sua vez, a tempestade simboliza a oposição e perseguições que a Igreja terá de enfrentar e sofrer ao longo da sua história. E como actualizar, isto é, aplicar ao hoje da Igreja a interpelação que Jesus dirige aos apóstolos? Jesus parece querer deixar claro que o que a Igreja deve temer, aquilo que a pode fazer abalar ou mesmo afundar não são tanto os ataques que surgem de fora, mas a falta de fé e de uma autêntica vida espiritual por parte dos seus membros, sobretudo dos seus pastores e daqueles que, embora não sendo propriamente pastores, têm muito poder nas estruturas da Igreja. Estes até podem ser muito ortodoxos e “certinhos”, aceitando, pelo menos em público, toda a doutrina, leis e tradições da Igreja. E, nessa medida, até podem ser muito apreciados e conseguirem belas carreiras. Porém, nunca se deixaram conquistar por Cristo nem abraçaram a radicalidade do Evangelho. Aqui está a principal causa da crise que vive a Igreja. Aqui está a origem dos grandes escândalos que a têm ensombrado e da luta pelo poder que existe no seu seio. A Igreja, sobretudo nos seus maiores responsáveis, mostra-se perita em detectar e apresentar soluções para todos os problemas e questões que afectam a sociedade. É urgente que ela mostre a mesma sabedoria em assumir os seus males internos e em apresentar uma solução adequada para os mesmos, sempre na fidelidade a Cristo e ao seu Evangelho. Jesus continua na barca da Igreja. E, com toda a certeza, não se encontra a dormir. A Igreja só perderá o medo e o seu complexo de vítima, quando nós, aqueles que a formamos, vivermos em plena comunhão com Jesus e confiarmos totalmente n’Ele.

08 abril, 2011

Alegro-me por não ter estado lá

Ao saber que Lázaro estava doente, Jesus, em vez de correr ao seu encontro para o curar, permanece por mais dois dias no local onde se encontrava. Parece não se incomodar muito nem dar muita importância ao facto. Depois, ao saber que Lazaro morreu, Jesus manifesta o seu contentamento: “alegro-me por não ter estado lá”.

Jesus surpreende-nos e desconcerta-nos, frequentemente, com as suas reacções! Neste caso concreto, como acreditar que Jesus era realmente amigo de Lazaro, de Marta e de Maria! Não estará Jesus a pôr em causa a amizade que o unia àquela família?!

Ao referir-se à doença de Lazaro, Jesus diz: “Essa doença é para que por ela seja glorificado o Filho do homem”. Por sua vez, ao referir a vantagem de não ter estado lá, Jesus, dirigindo-se aos discípulos, aponta um motivo importante: “por vossa causa … para que acrediteis”. Como entender as vantagens da doença e morte de Lazaro? Em que medida o facto de não ter chegado lá, antes de Lazaro morrer, pode ser mais apropriado para Jesus manifestar a sua glória e os seus discípulos acreditarem nele?
Jesus alegra-se por não ter estado lá para o curar, porque assim pode manifestar o seu poder divino, chamando-o da morte à vida. Ora, é, sem dúvida alguma, mais revelador do seu poder divino ressuscitar Lázaro do que restabelecer a sua saúde. E é muito mais importante para os homens que Ele possa ressuscitar os mortos do que curar os doentes.

“Alegro-me por não ter estado lá”. Se tivesse estado lá, não teria acontecido o diálogo, tão franco e tão revelador, entre Jesus e Marta. Através dele, Jesus apresenta-se como “a ressurreição e a vida”, o Senhor da vida e da morte, e garante que quem nele acredita nunca morrerá. Por Ele, os homens têm acesso à vida eterna de Deus.
Por sua vez, Marta tem a oportunidade de professar a sua fé em Jesus: “Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo”. A dor que sente pela morte do irmão não rouba a Marta a capacidade de ouvir nem a priva da sua lucidez. Pelo contrário, ela escuta e compreende as palavras e as razões de Jesus. Por isso, daquele diálogo sai mais esclarecida a sua fé e mais forte o seu amor por Jesus.

“Alegro-me por não ter estado lá”. Não tendo estado lá antes, quando parecia mais lógico e necessário que estivesse, Jesus tem a oportunidade de mostrar, de um modo ainda mais evidente e convincente, como era amigo daquela família e como era profundamente humano.

Na verdade, Jesus, ao ver “Maria chorar e vendo chorar também os judeus que vinham com ela, comoveu-se profundamente e perturbou-se”. E, depois, ao aproximar-se do local onde tinham colocado o corpo de Lázaro, “Jesus chorou”. Jesus comove-se e chora, porque é sensível à dor e às lágrimas dos familiares e amigos de Lázaro. Mas Jesus chora também porque era efectivamente muito amigo de Lázaro. Os próprios judeus o intuem e, por conseguinte, comentam com admiração: “vede como era seu amigo!”

Ainda bem que Jesus não estava lá! Assim, Ele pôde dar este extraordinário testemunho de amizade. Jesus, o Filho de Deus, que tem poder para ressuscitar Lázaro, mostra-se profunda e admiravelmente humano, chorando por Lázaro morto!

“Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. Estas são as palavras com que Marta e Maria, em separado, se dirigem a Jesus, quando se encontram com Ele, após a morte do irmão. Segundo elas, foi uma pena que Ele não tivesse chegado ante, a tempo de o curar, pois estão convictas de que Ele poderia ter evitado a sua morte.
Não tendo estado lá, na altura em que as duas irmãs julgavam que deveria estar, Jesus pôde revelar melhor a sua verdadeira identidade: revelou a sua divindade, ressuscitando Lazaro, e mostrou a sua humanidade, chorando por ele e comovendo-se com todos os que choravam. Além disso, e esse é o principal objectivo de Jesus, muitos, testemunhando o que Ele fez por Lázaro, acreditaram nele.

Muitas vezes censuramos Deus porque Ele, pensamos nós, não se encontra no lugar certo nem actua na hora certa, ou seja, Deus não está onde e quando é preciso nem actua segundo as nossas necessidades. Por vezes, ficamos com a impressão de que Deus não está do nosso lado nem age em nosso favor como seria de esperar do verdadeiro Deus. A história do Evangelho mostra que Deus, muito melhor do que nós, conhece o que nos faz falta e convém, para a nossa vida e para a nossa salvação. Ele, melhor do que nós, sabe qual é o momento certo para agir na vida do homem e em seu favor.

28 março, 2011

"Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo"

Jesus e uma mulher samaritana encontram-se junto ao poço de Jacob e estabelecem entre si um prolongado e curioso diálogo.
O diálogo em si já constitui algo de surpreendente. Na verdade, trata-se de uma conversa entre um homem e uma mulher, em lugar público e à luz do dia, o que era considerado reprovável. Até “os discípulos ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher”. Além disso, trata-se de uma mulher samaritana. Ora, como informa o evangelista, “os judeus não se dão com os samaritanos”.

Depois, o diálogo é, de parte a parte, franco e provocador. Cada um pergunta e responde, sem rodeios nem reservas, o que pensa e o que sente.

A samaritana considera um atrevimento que Jesus tenha metido conversa com ela, pedindo-lhe de beber, e, por conseguinte, interpela-o, em tom de censura: “como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana? Mais adiante, põe em dúvida que Jesus lhe possa dar uma “água viva”, uma água superior à daquele poço: “serás tu maior do que o nosso pai Jacob?”

Por sua vez, Jesus também a provoca, quando a manda ir chamar o marido, sabendo Ele muito bem, como confirmará depois, que ela se encontra numa situação irregular. “Não tens marido, pois já tiveste cinco e aquele que tens agora não é teu”. No entanto, com esta sua intervenção, Jesus, de modo algum, pretende humilhar a mulher. Pelo contrário, deseja ajudá-la a tomar consciência da realidade em que vive e levá-la à conversão.

Jesus também questiona e corrige a concepção que ela tem quanto ao lugar em que se deve prestar culto a Deus. Para Deus, o importante não é o lugar de culto mas as pessoas Lhe prestem culto. Estas devem adorá-lo em “espírito e em verdade”, um culto que brote do coração, que seja autêntico e sincero.

O Diálogo vence todas as barreiras e preconceitos, a nível étnico, cultural e religioso. E, acima de tudo, permitiu à samaritana chegar ao verdadeiro conhecimento de Jesus. Graças àquele encontro, ela reencontrou o sentido da vida e readquiriu a sua dignidade. Jesus torna-se próximo das pessoas e fala com elas, entra nas suas vidas e comunica-lhes a sua, precisamente para as recuperar e salvar.

A mulher, no início do diálogo, pensa que Jesus é apenas um judeu, um judeu atrevido! Depois, quando Jesus mostra conhecer a sua vida pessoal, suspeita que seja um profeta. De seguida, o próprio Jesus se apresenta como o Messias esperado. Finalmente, com todos os outros seus conterrâneos, descobre e confessa que Ele é o Salvador do mundo.

Tudo começou por um encontro, aparentemente, fortuito, e, a partir deste, chega ao encontro pessoal com o Salvador dos homens! Foi ao poço, como todos os outros dias, buscar água, mas, nesse dia, tendo encontrado lá a Fonte da água viva, voltou repleta dessa água que “jorra para a vida eterna”!

E essa “água viva” impele-a a deixar a bilha junto ao poço e a correr à cidade, para partilhar com os seus concidadãos aquela extraordinária experiência.
Os samaritanos, interpelados pela mulher, foram pressurosos ao encontro de Jesus e entusiasmaram-se tanto que Lhe pediram que ficasse mais algum tempo com eles. Depois de dois dias com Jesus, muitos acreditaram nele e disseram à mulher: “já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. “Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo”.
  • Não basta conhecer Deus só de ouvido, ou seja, pelo que os outros dizem, ainda que sejam excelentes pregadores;
  • Não basta conhecer as verdades sobre Deus, ainda que sejam expostas pelos mais qualificados teólogos; 
  • Não basta participar nas acções litúrgicas, ainda que sejam as mais esplendorosas; n
  • Não bastam os exemplos dos santos, ainda que sejam os mais famosos.
Tudo isso ajuda mas não é suficiente. É indispensável o encontro pessoal com Jesus. Só então a fé acontece - uma fé que entusiasma o homem e transforma a sua vida!

A mulher devia ter ido com pressa buscar a água. De resto, “era por volta do meio-dia” e fazia muito calor! No entanto, ela esqueceu a pressa e abstraiu-se do calor, entregando-se inteiramente ao diálogo com Jesus! E, depois, ainda teve tempo para levar muitos outros até Jesus!
Quem, como a mulher samaritana, encontra Jesus e entra na sua intimidade sente-se naturalmente impelido a tornar-se seu discípulo por toda a vida e, ao mesmo tempo, como verdadeiro missionário, a anunciá-lo aos homens.

14 março, 2011

"... mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus".

Depois de ter sido baptizado por João, Jesus, impelido pelo Espírito Santo, retira-se para o deserto, onde permanece quarenta dias. Durante esse longo período de silêncio e oração, sempre acompanhado pelo Espírito e em íntima comunhão com o Pai, Jesus prepara-se para a sua missão entre os homens.
Visitado e tentado pelo Demónio, Jesus repele categoricamente todas as suas propostas, proclamando claramente a superioridade da palavra de Deus sobre os bens materiais e a supremacia de Deus sobre a fama e o poder deste mundo.

Jesus não usa o seu poder divino para refutar e confundir o Demónio. A fome não lhe rouba a lucidez e a serenidade. Na verdade, embora podendo, Jesus não transforma as pedras em pão. Também não brinca com o poder divino, lançando-se do pináculo do templo abaixo. Muito menos se deixa seduzir pelo poder e o esplendor dos reinos deste mundo. Jesus não aceita nem cede aos desafios do Demónio. Não faz os milagres que este lhe pede para provar que é Filho de Deus. Se os tivesse realizado, Jesus teria caído na cilada e o Demónio teria saído vitorioso. Jesus sabe que é por outro caminho que deve mostrar aos homens a sua verdadeira identidade.

Nas três diferentes situações em que o Demónio O coloca, Jesus rebate-o sempre com passagens da Escritura, ou seja, responde-lhe e vence-o com a palavra de Deus. Agindo deste modo, Jesus mostra, por um lado, que conhece bem as Escrituras, e, por outro, que vive em perfeita sintonia com a vontade de Deus, que elas revelam. A comunhão com Deus e a fidelidade à sua Palavra explicam e tornam possível a vitória de Jesus sobre o Demónio e o mal que ele personifica.
           
As palavras com que Jesus responde ao Demónio podem servir de ponto de partida para a nossa vivência da Quaresma. Estas palavras, se meditadas no coração, ajudam-nos a descobrir qual a justa atitude que devemos assumir diante de Deus, bem como face às realidades humanas e às coisas deste mundo. E, nessa mesma medida, ajudam-nos a vencer as grandes e pequenas tentações da nossa vida.
Assim, apesar da pressa e da agitação em que vivemos, devemos, ao longo deste tempo da Quaresma, fazer deserto e silêncio interior, parar para escutar e meditar as palavras de Jesus, ou melhor, o próprio Jesus. Precisamos de tempo e de coragem para examinar e confrontar a nossa vida, sobretudo as nossas motivações, à luz das suas palavras.

 “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. Tentado e iludido, anestesiado e alienado pelo consumismo, o homem precisa de acordar para a sua dimensão espiritual e tomar consciência de que tem fome (necessidade) de Deus. O homem precisa de Deus, da palavra que sai da sua boca e do amor que jorra do seu coração. Sem este mais de Deus, ainda que usufrua de todo o bem-estar material, o homem acaba por se sentir existencialmente incompleto e insatisfeito.

“Não tentarás o Senhor teu Deus”. Tenta a Deus aquele que, por mero capricho, Lhe pede que faça algo de extraordinário e que não é de qualquer utilidade para ninguém. Depois, aquele que quer que Deus lhe faça o que ele, com o seu trabalho e as capacidades que tem, pode fazer. E ainda aquele que exige a Deus um determinado milagre como condição para acreditar nele. É muito forte a tentação do homem de pôr Deus à prova, de O submeter ou subordinar aos seus gostos e necessidades. Quem faz exigências deste tipo mostra que não acredita verdadeiramente nem está interessado em acreditar em Deus, mas procura apenas um pretexto para justificar a sua descrença. Ora, o que Deus revelou de si mesmo e fez em nosso favor por seu Filho Jesus Cristo é “o milagre extraordinário”, “a grande razão” – milagre e razão mais que suficientes – para que o homem acredite nele.

“Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto”. A ambição do poder, do mesmo modo que a ganância da riqueza, leva o homem a desviar o seu coração de Deus. O homem gosta de exercer domínio sobre os outros, de ser o centro de todas as atenções, ser reconhecido em vida e perpetuar o seu nome para além da morte. Quando cede a esta tentação, o homem sobrepõe-se ao seu semelhante e desvaloriza Deus. Mesmo que não O negue, o homem acaba por não adorar exclusivamente a Deus nem Lhe prestar o culto que Lhe é devido. Ora, Deus, por ser único e por ser o Deus do amor, merece que O adoremos só a Ele, e, além disso, só a Ele dediquemos o culto da nossa vontade e do nosso coração, o culto da vida e do amor, o culto “em espírito e em verdade”.

26 fevereiro, 2011

”Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”

O pleno cumprimento da Lei exige que o homem reconheça e ame Deus como o seu único Senhor. Jesus diz-nos que não é tolerável que o homem coloque a riqueza ao mesmo nível de Deus. Ou, pior ainda, que o amor à riqueza secundarize o amor devido a Deus.
Jesus, ao apontar a gravidade e a contradição de tal comportamento, mais do que defender um direito de Deus, tem em vista garantir a liberdade e a dignidade do homem. Na verdade, o Deus do amor, precisamente porque ama, está ao serviço do homem, respeitando todos os seus direitos. Deus, porque ama, não domina, mas dá-se ao homem para que este se realize plenamente. Ao passo que a riqueza, quando o homem lhe dá a primazia na sua vida, faz dele um escravo e, simultaneamente, um tirano.
Com efeito, quando se convence que a felicidade e a segurança da sua vida dependem dos bens materiais, o homem acaba por viver completamente em função deles. Como verdadeiro escravo, subordina-lhe tudo e sujeita-se a tudo para os acrescentar e conservar. Por vezes, é tão escravo deles que nem sequer os usa em seu proveito pessoal! Além disso, não raras vezes, o homem não hesita em hipotecar e menosprezar a sua consciência e a sua fé, as suas convicções e compromissos, os seus sentimentos e afectos, os seus amigos e até a sua própria família. Quantos, movidos pela sua desmesurada ambição, não agem como tiranos, explorando os outros ou exercendo um domínio indevido sobre eles! O endeusamento da riqueza acaba por desumanizar o homem e gerar enormes injustiças sociais.

Jesus convida-nos a confiar na providência de Deus, argumentando com o que Ele faz em favor das aves do céu e os lírios do campo. Deus, na sua sábia providência, proporciona a todos os animais e plantas o que eles precisam para viver. Muito mais o faz em relação ao homem. No entanto, a confiança na providência de Deus não implica desinteresse em relação aos bens deste mundo nem constitui um apelo à preguiça, como se tudo caísse do Céu e nos viesse ter às mãos. As próprias aves afadigam-se a procurar o alimento, a fazer os seus ninhos, a criar os seus filhos.

Algo de semelhante acontece com o homem. Deus faz a parte mais difícil, criando a natureza e dotando-a de tudo o que é necessário à vida e ao desenvolvimento do homem. O homem, por sua vez, deve trabalhar para conseguir os bens de que precisa. Mas deve fazê-lo consciente de que todos esses bens são um precioso dom Deus. Deve também sentir e reconhecer que, para além destes bens, que Deus no seu amor providente lhe concede, precisa, mais ainda, do próprio Deus. E deve tomar consciência e assumir que a sua vida depende mais de Deus do que dos bens que adquire e acumula com o seu esforço.

O homem que dá o primeiro lugar a Deus, que O ama com todo o seu coração e confia a Ele toda a sua vida e todos os seus projectos não se preocupa, excessiva e doentiamente, com o dia de amanhã, com o que comerá, beberá ou vestirá. Nessa medida, estará mais atento e será mais sensível aos pobres, partilhando com eles o que possui.

Aquele que confia no Senhor dá também a primazia ao Reino de Deus. Esse segue o conselho de Jesus: “Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”, pois acredita na sua promessa: “tudo o mais vos será dado por acréscimo”. Aquele que consagra a sua vida ao reino de Deus receberá, como resultado e fruto desse seu empenhamento, todos aqueles bens que são inerentes ao próprio Reino. Quando o homem faz a sua parte, aquilo que está ao seu alcance e é sua missão fazer, então terá “tudo o mais” de que precisa para se realizar e ser feliz, pois Deus nunca falta com a sua parte.

“Não podeis servir a Deus e …”. Esta advertência de Jesus é válida e actual para nós. 
  • Não existirão muitos “tesouros” em nós a rivalizar com Deus, a lutar pelo primeiro lugar do nosso coração? 
  • Não viveremos demasiado preocupados com as seguranças humanas ao ponto de relegarmos Deus para segundo lugar, fazendo de Deus apenas “o amor das horas vagas”?! 
  • Não correremos o risco de andar metidos nas “coisas” da Igreja e de nos cansarmos em actividades apostólicas e pastorais mais por amor de nós próprios do que por amor de Deus, mais para satisfazer interesses pessoais do que em vista da glória de Deus?
O primeiro mandamento, que nos manda amar a Deus sobre todas as coisas, tem implícito o imperativo de fazer “todas as coisas só por amor de Deus” (D. João de Oliveira Matos).

06 fevereiro, 2011

"Vós sois a luz do mundo"

Jesus apresentou as bem-aventuranças como o programa que o homem deve seguir para acolher o reino de Deus, para o ajudar a construir na terra e para o receber como herança no Céu. Aqueles que vivem segundo este projecto são, no dizer do próprio Jesus, “sal da terra” e “luz do mundo”, ou seja, ajudam a dar sabor e sentido à vida dos homens.
Jesus é a verdadeira luz do mundo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). Jesus é luz porque, com a sua palavra e a sua vida, revela a verdade sobre Deus, o homem, o mundo e a história. Por sua vez, os seus discípulos, na medida em que acreditam em Jesus e se identificam com Ele, irradiam a sua luz diante dos homens. De facto, através das boas obras, eles reflectem a luz de Cristo - a luz da verdade e do amor de Deus. E, nessa mesma medida, tornam Deus visível aos homens.
“Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus”. Os discípulos não devem, por certo, publicitar o bem que fazem, mas, se o realizam, não deixará de ser notado pelos homens e não deixará de os interpelar. Mas quais são, em concreto, essas boas obras que revelam Deus aos homens e os levam a acreditar nele e a louvá-lo?

A primeira leitura dá-nos a resposta. Através do profetas Isaías, Deus diz-nos que o homem é luz e que a sua luz brilha no mundo, quando reparte o pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva a roupa ao que não tem que vestir e não volta as costas ao seu semelhante; quando tira do meio de si a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas.
Estas obras irradiam a luz de Cristo e são luz para os homens porque mostram o rosto de:
  • um Deus que ama os homens e é misericordioso para com eles;
  • um Deus que se torna próximo de cada homem e se mostra interessado em mudar a sorte do pobre, do doente e do oprimido;
  • um Deus que propõe e promove a liberdade e a fraternidade entre os homens;
  • um Deus que quer precisar dos homens para concretizar os seus planos e alcançar os seus objectivos.

Além disso, revelam que a religião do verdadeiro Deus é uma religião que está ao serviço da pessoa humana. Deus interessa-se pelo bem do homem no seu todo e não apenas nem tanto pela sua dimensão religiosa. O que o verdadeiro Deus mais deseja e espera daqueles que nele acreditam é que amem e respeitem o seu semelhante.

O cristão irradia a luz de Cristo:

  • sempre que diz e defende a verdade, apesar de muitas vezes ser mais cómodo e trazer mais proveito calá-la ou colocar-se do lado da mentira;
  • quando respeita e defende a vida humana em todas as suas etapas, remando contra a forte corrente de uma falsa modernidade;
  • quando vive segundo a moral do Evangelho, apesar do relativismo moral vigente na sociedade;
  • quando, sem medo nem vergonha, professa a sua fé e defende os princípios e os valores que lhe são inerentes, mesmo nas circunstâncias mais difíceis e nas questões mais controversas com que é confrontado.

Vivendo assim, os cristãos fazem a diferença, levam os homens a interrogarem-se e a reflectirem, dão-lhes razões válidas e consistentes para acreditarem em Deus. O testemunho de vida dos cristãos constitui o anúncio mais convincente e eficaz do Evangelho de Jesus. A sua coerência de vida é o caminho mais adequado para levar os homens até Deus, a amá-lo e a glorificá-lo como o Pai que está nos Céus.

Os Actos dos Apóstolos confirmam que o testemunho de vida das comunidades cristãs primitivas (tinham um só coração e uma só alma, entre eles tudo era comum, entre eles não havia ninguém necessitado) fazia aumentar todos os dias o número daqueles que abraçavam a fé (Act 2,46-47;4,32-35). Ainda hoje, num mundo em que a palavra está completamente desacreditada, a vida das comunidades cristãs constitui o principal e mais eficaz meio de evangelização. Se falta este testemunho, todas as acções pastorais estão votadas ao fracasso.

29 janeiro, 2011

"Bem-aventurados os pobres em espírito"

No domingo passado, Jesus dirigiu-nos este convite: “arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo”. Hoje, apresenta-nos o programa desse reino de Deus e, ao mesmo tempo, concretiza em que se deve traduzir o arrependimento que pede às pessoas. Na verdade, através das bem-aventuranças, Jesus indica ao homem as atitudes e os sentimentos que deve ter, o que deve fazer e o modo como deve viver, para acolher o reino de Deus, para o ajudar a construir na terra e para, depois, o receber como herança eterna no Céu.

Para grande surpresa dos ouvintes, Jesus começa por proclamar “Bem-aventurados os pobres em espírito...” Segundo a versão de Mateus, Jesus não se limita a afirmar: “bem-aventurados os pobres”. Para evitar possíveis equívocos, especifica o tipo de pobres que são realmente felizes, aqueles pobres que pertencem efectivamente ao reino de Deus: “os pobres em espírito”.

“Pobre em espírito” é aquele que:

  • se conhece e assume na verdade do que é (a sua grandeza e os seus limites);
  • não confia apenas em si nem se considera como senhor absoluto da sua vida;
  • tem consciência de que não deve a ele próprio o seu início nem depende apenas dele o seu termo;
  • reconhece que sozinho não consegue encontrar resposta para todas as suas questões existenciais nem consegue satisfazer todas as suas necessidades.

Como consequência, é alguém que se sente indigente e necessitado de Deus. Descobre e reconhece que só Deus pode dar sentido e consistência à sua vida. Por isso mesmo, acolhe e aceita Deus como seu Senhor e meta última da sua existência.
Além disso, descobre e reconhece também que precisa dos outros para viver e se realizar como pessoa; sente que precisa deles para amar e ser amado; precisa do que os eles sabem e produzem; precisa de comungar com eles os seus sonhos e projectos e é consciente de que só com a ajuda deles os pode realizar.

Ser “pobre em espírito” implica ainda desprendimento em relação aos bens materiais; não vive em função da riqueza nem lhe entrega o seu coração; dá o primeiro lugar ao reino de Deus, convencido de que tudo o resto se lhe deve subordinar e estar ao seu serviço.

  • Aqueles que assim entendem a sua vida, esses, no seu existir quotidiano, são mansos e humildes, compassivos e misericordiosos, puros e rectos nas suas intenções, solidários e justos, pacíficos e fraternos. Esses consagram a sua vida e estão dispostos a sofrer por causa do reino de Deus.
  • Aqueles que vivem a primeira bem-aventurança, vivem necessariamente todas as outras, pois estas decorrem daquela, isto é, são a sua concretização. Com efeito, o ser pobre em espírito coloca o homem numa justa relação com Deus, com o seu semelhante e com os bens materiais. Quem vive em sintonia com Deus não pode deixar de viver em sintonia com os outros, com os seus sentimentos, as suas aspirações e as suas necessidades. De igual modo, não pode deixar de construir a sociedade humana segundo o plano de Deus.

Acolher o reino de Deus e torná-lo presente no mundo não é tarefa fácil. Aqueles que, seduzidos por Cristo, embarcam neste projecto são perseguidos, insultados e caluniados. A verdade do Evangelho e a justiça que ele reclama exigem uma mudança profunda na vida de cada pessoa e no todo da sociedade.

  • Ora, muitos não suportam que seja questionada a sua vida ou lhes apontem as contradições da mesma.
  • Muitos não suportam que seja questionado o poder que têm e o modo como o exercem, a riqueza que possuem e o modo como a adquirem, os privilégios de que gozam em detrimento do cidadão comum, a hipocrisia moral e religiosa em que vivem.
  • Outros não suportam que alguém lhes mostre que Deus é muito diferente do modo como eles o imaginam e querem que seja.

Esses tudo farão para desacreditar ou fazer calar os anunciadores do Evangelho - os servidores do reino de Deus.

O evangelista Mateus diz-nos que Jesus só começou a falar depois dos discípulos se terem aproximado dele. Estes são os principais destinatários do discurso de Jesus e eles têm consciência disso. Aproximam-se de Jesus, querem escutá-lo com atenção, olhando-O nos olhos e deixando-se olhar por Ele. Só assim é possível entrar em sintonia com Aquele que fala e, nessa medida, captar, para além das palavras, o mistério da mensagem que anuncia e o alcance do projecto de vida que lhes propõe.
Também nós, só com essa mesma atitude de discípulos, poderemos captar a beleza do reino de Deus e aceitar o desafio de fazer dele o sonho da nossa vida, investir ao seu serviço os nossos talentos e sofrer por causa dele.

Pe. Martins in Jornal "A Guarda"

22 janeiro, 2011

Os preferidos de Deus

Depois de ter baptizado Jesus e presenciado a manifestação de Deus, João sabe que chegou ao termo a sua missão. Como último acto da mesma, confessa que Jesus é o Filho de Deus (Jo 1,34) e revela que é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”(Jo 1,29.36), ou seja, manifesta aos judeus e, sobretudo, aos seus discípulos a identidade e a missão de Jesus. Deste modo, indica-lhes que, a partir daquele momento, já não tem sentido continuar com ele. Pelo contrário, devem olhar apenas para Jesus e segui-lo unicamente a Ele. João desaparece da cena pública (foi preso) e Jesus começa a anunciar o reino de Deus na Galileia.
É curioso que Jesus tenha dado início à sua pregação na região da Galileia, conhecida, desde o tempo de Isaías, como “a Galileia dos gentios”. A Galileia, embora fazendo parte da Terra prometida, era apelidada de terra dos gentios porque, desde o séc. VIII a. C., eram muitos os não judeus que habitavam naquela região.
Ao começar por aí, Jesus mostra que vem para todos os povos (e não apenas para o povo de Israel) e que Deus quer salvar todos os homens (e não apenas os judeus). Além disso, manifesta também que, embora vindo para todos, dá especial atenção aos que eram olhados com desdém e tratados com desprezo pela sociedade. Esses são os preferidos de Deus.
Jesus, anunciando a proximidade do reino de Deus, cumpre a profecia de Isaías: uma grande luz brilha e ilumina os homens e mulheres que andavam nas trevas. O reino de Deus é o mundo novo que Deus sonhou para os homem, um mundo segundo a medida do seu amor por eles. Um mundo novo que reclama justiça para os pobres e liberdade para os oprimidos; que é verdade para quantos procuram o sentido da vida e perdão misericordioso de Deus para os homens pecadores (cf Lc 4,18-19).
Os que andavam nas trevas eram, antes de mais:
  • aqueles que não viam claro o sentido da vida e não tinham consciência da sua dignidade;
  • aqueles que eram vítimas das injustiças e arbitrariedades dos senhores deste mundo e que, por isso mesmo, não tinham reconhecido o seu lugar na sociedade;
  • eram também aqueles que, desconhecendo a verdade de Deus, viviam enganados e esmagados pelas religiões dos homens. E, como é óbvio, na origem de todas estas formas de trevas está o pecado do homem.

O reino de Deus, para se tornar realidade no mundo dos homens, exige que estes o acolham na sua vida e colaborem na sua construção. Nesse sentido, Jesus exorta: “arrependei-vos”.

  1. Em primeiro lugar, o homem é convidado a confrontar a sua vida com a proposta de vida que Jesus lhe faz, de modo a descobrir a discrepância que existe entre elas.
  2. Depois, Jesus convida o homem a converter-se a Deus, ou seja, a conformar a sua mente e o seu coração com a verdade e o amor de Deus. Então, o homem voltará a pertencer plenamente a Deus e viverá em plena sintonia e comunhão com Ele. O reino de Deus começa a acontecer no coração do homem.
  3. Só depois, o homem, assim renovado interiormente, poderá fazer crescer o reino de Deus na sociedade, isto é, construir a sociedade em conformidade com os desígnios de Deus, segundo os valores da “verdade e da vida, da santidade e da graça, da justiça, do amor e da paz”.

O Evangelho deste domingo relata-nos também o chamamento dos primeiros quatro discípulos de Jesus. Antes de mais, importa salientar o facto que Jesus tenha chamado os seus discípulos logo no início do seu ministério. Procedendo desse modo, Jesus mostra como considera importante e necessário que eles O acompanhem ao longo de toda a sua missão entre os homens. Esse é o tempo que os apóstolos têm para conhecer Jesus, a sua vida e missão. O tempo do seu ministério público indica a duração e o âmbito da formação dos apóstolos.
Em segundo lugar, impressiona-nos a resposta pronta e positiva daqueles quatro pescadores da Galileia. A um simples convite “Segui-me”, acompanhado de uma promessa cujo alcance não devem ter compreendido muito bem: “farei de vós pescadores de homens”, eles, sem perderem tempo a fazer cálculos e sem terem exigido nada em troca, decidiram arriscar por completo as suas vidas: deixaram tudo e seguiram Jesus.

“Arrependei-vos” e “segui-me” são dois convites que Jesus continua a dirigir aos homens de todos os tempos, também a cada um de nós. Os dois apelos são, em certa medida, inseparáveis. Na verdade, o arrependimento, a renúncia ao egoísmo e ao pecado que dele nasce, a conversão a Deus, só acontecem quando o homem se encontra com Jesus e aceita fazer dele o caminho da sua vida. Por outras palavras, o homem só adere efectivamente ao reino de Deus e lhe consagra toda a sua vida, quando descobre e aceita que Jesus vale mais do que todos os seus bens, as suas verdades, os seus pontos de vista, as suas seguranças humanas; quando descobre e aceita que Ele é o tesouro ao qual vale a pena subordinar tudo (os bens e a própria vida).

Pe. Martins in Jornal "A Guarda"

15 janeiro, 2011

“O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (2º Dom)

João foi testemunha da manifestação de Deus por ocasião do Baptismo de Jesus. Agora, ele confirma que viu o Espírito Santo descer do Céu e repousar sobre Jesus. E revela que este facto permitiu-lhe reconhecê-lo como o enviado de Deus - Aquele que baptizará no Espírito Santo. Além disso, João também confirma que ouviu a voz do Pai: “eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”. Tendo visto o Espírito Santo e ouvido Deus, João descobriu e acreditou na verdadeira identidade de Jesus e, por sua vez, manifesta-a aos seus ouvintes, com a força do testemunho.
João vai mais longe na revelação de Jesus ao apresentá-lo como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Especifica que a missão do Filho de Deus é libertar o homem do pecado.
A imagem do cordeiro, com que João se refere a Jesus, inspira-se no cordeiro pascal dos judeus. Segundo o livro do Êxodo, antes da saída do Egipto e como preparação da mesma, Deus ordenou aos israelitas que imolassem um cordeiro e com o seu sangue pintassem as portas das suas respectivas casas, para que o Anjo Exterminador, ao passar pela terra do Egipto, poupasse os primogénitos dos judeus Deste modo, o cordeiro, que, ainda hoje, faz parte da ementa da ceia pascal judaica, simboliza a salvação e a libertação do povo, graças à intervenção de Deus. O cordeiro morre, mas o seu sangue serve de sinal para ao Anjo, e assim, graças a ele, salvam-se muitas pessoas.
Jesus é Aquele que morre, derramando o seu sangue na cruz, para salvar todos os homens. Com a doação da sua vida, Ele redime e liberta o homem do pecado, que é a fonte e a causa de toda a forma de escravidão. Nessa medida, Ele é o verdadeiro Cordeiro pascal, ou seja, Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
Na verdade, o pecado oprime o homem e faz dele o opressor do seu semelhante. O homem, quando recusa dar a Deus o primeiro lugar na sua vida, ou seja, na medida em que não aceita depender de Deus, vê tudo e todos em função de si mesmo: da sua ambição e ganância, das suas paixões e conveniências, dos seus interesses e gostos pessoais.
  • Assim, o homem procura o poder, passando por cima dos direitos dos outros, e exerce-o sobrepondo-se e impondo-se a eles;
  • procura a riqueza sem justiça e usa-a sem qualquer sentido de partilha;
  • procura o prazer sem quaisquer limites, usando e tratando as pessoas como coisas;
  • considera que as suas “verdades” valem mais do que as verdades dos outros e que só tem direitos e não tem deveres.

Este modo de se entender e de entender os outros não só perturba gravemente as relações interpessoais como gera formas terríveis de opressão no seio da sociedade.
Pela oferta da sua vida, acto supremo do amor de Deus pelos homens, Jesus tira o pecado do mundo, vence o pecado do homem. No entanto, esta libertação só acontece efectivamente na vida de cada homem na medida em que este acredita em Jesus, recebe o sacramento do baptismo e vive realmente segundo a verdade e o amor de Deus. Com efeito, só a verdade revelada por Jesus, indissociável do amor de Deus que Ele mesmo testemunhou, torna o homem verdadeiramente livre: “a verdade vos tornará livres” (Jo 8,32).
Jesus quer “tirar o nosso pecado, vencer o nosso egoísmo, devolver-nos a nossa dignidade e tornar-nos plenamente livres", para que Deus e os homens possam ocupar o lugar que merecem no nosso coração. Ele quer também tirar o pecado do mundo, ou seja, erradicar todas as formas de opressão que sobrevivem e se propagam na sociedade contemporânea e que tão negativamente afectam a vida dos homens:

  • a ditadura do relativismo, tão defendida e generalizada nos nossos tempos, que põe em causa valores e direitos fundamentais da pessoa, como a vida, o casamento e a família;
  • a ditadura do poder económico que, todos os dias, cria mais pobres e faz aumentar a miséria no mundo;
  • a ditadura do laicismo negativo dos Estados que, em nome de uma falsa liberdade, não respeita a liberdade religiosa dos cidadãos;
  • a ditadura da indiferença religiosa que condena os homens à mediocridade de uma vida sem sentido e sem esperança.

Jesus quer e pode tirar o pecado do mundo, mas não o faz sem o nosso consentimento e a nossa colaboração. O homem não pode ser livre e salvar-se sem Jesus, mas Jesus não o pode salvar e fazer livre à força!

Pe. Martins in Jornal "A Guarda"

10 janeiro, 2011

Baptismo de Jesus

Jesus, como tantos outros judeus e como se em nada fosse diferente deles, vai ao encontro de João para ser baptizado por ele. João, no deserto da Judeia, exortava todos à conversão (Mt 3,2), e muitos “eram por ele baptizados no Jordão, confessando os seus pecados” (Mt 3,6). Jesus, apesar de não ter pecados para confessar e, consequentemente, não ter necessidade de arrependimento e de conversão, aproxima-se de João e sujeita-se ao rito do baptismo. Agindo deste modo, põe em evidência a sua condição humana e, ao mesmo tempo, manifesta a sua solidariedade e proximidade com os pecadores – algo que caracterizará toda a sua vida e missão.
João tem plena consciência da superioridade de Jesus, da sua missão e do seu baptismo. Antes esclarecera: “eu baptizo-vos em água, para vos mover à conversão … Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo” (Mt 3,11). Por isso mesmo, João considera que é ele que tem necessidade de ser baptizado por Jesus e não o contrário. Mas Jesus faz-lhe ver que é necessário e conveniente que se cumpra toda a justiça, ou seja, que se realizem, também neste caso, os desígnios de Deus. A lógica de Deus é diferente da lógica dos homens. O Messias, contrariamente ao que muitos judeus esperavam, não vem com esplendor e força para libertar o povo, mas sim na humildade da natureza humana para salvar os homens pecadores.
  • O Baptismo de Jesus é o ponto de partida do seu ministério público. Sendo um momento tão relevante, Deus Pai e o Espírito Santo fazem questão de marcar presença e de interagirem com Jesus. Deus reconhece e apresenta Jesus como o seu Filho muito amado, o Filho no qual Ele se revê. Jesus, ao longo da sua missão e como parte da mesma, revelará Deus como o Pai de todos os homens e fará dos homens filhos de Deus. Deus que, no Baptismo de Jesus, se mostra como uma família, quer, através de Jesus, integrar todos os homens na sua família, admitindo-os à plena amizade e comunhão com Ele!
  • Por sua vez, o Espírito Santo desce sobre Jesus, ungindo-O e consagrando-O para a missão. Na sinagoga de Nazaré, Jesus, apropriando-se de palavras do profeta Isaías, assumirá: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova” (Lc 4,18). Por sua vez, os apóstolos manifestam a mesma convicção ao afirmarem: “Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem” (Act 10,38). A missão de Jesus é indissociável do Espírito Santo. Além disso, a presença do Espírito nesta ocasião serve também para indicar que com Jesus terá início um novo baptismo. Só o baptismo no Espírito Santo tem a capacidade de regenerar e recriar o homem, de o renovar e santificar, fazendo dele filho de Deus.

Este episódio do baptismo revela a identidade de Jesus: verdadeiro homem e, ao mesmo tempo, verdadeiro Filho de Deus. No entanto, podemos supor que, para além de João, não houve outras testemunhas da manifestação de Deus ou pelo menos testemunhas que tenham captado o seu alcance.
Será Jesus, ao longo da sua missão e sem dizer antecipadamente quem é, a revelar progressivamente a sua identidade, através do anúncio do reino de Deus, das obras extraordinárias que realiza, do modo como se relaciona com as pessoas e, sobretudo, no mistério da sua morte e ressurreição. Desse modo, alguns homens e mulheres foram descobrindo e acreditando que Jesus era o Messias, o Filho de Deus, o Salvador dos homens.
Nós já sabemos quem é Jesus. Mas o nosso conhecimento é, de um modo geral, demasiado teórico, tendo como base o que ouvimos dizer aos outros ou lemos nos livros. Também confessamos que Jesus é o Filho de Deus e o nosso Salvador. No entanto, a nossa fé é, quase sempre, pouco sentida, não resulta de um encontro pessoal com Jesus, não se faz visível na nossa vida.
Precisamos fazer com Jesus o percurso espiritual que vai do seu Baptismo até à sua Ascensão ao Céu, seguindo, ao longo deste ano litúrgico, o Evangelho de Mateus, em sintonia com a proposta pastoral da nossa diocese. E devemos fazer esta caminhada espiritual sentindo-nos interlocutores, destinatários, ouvintes e testemunhas de Jesus. Devemos deixar-nos questionar e interpelar por Ele, acolhendo a sua palavra e meditando-a no nosso coração, como Maria. Só assim, Jesus iluminará e transformará a nossa vida.

Pe. Martins in Jornal "A Guarda"

17 janeiro, 2010

"Ele os criou homem e mulher (macho e fêmea)"...

Jesus também foi convidado para o casamento. E, neste casamento, Jesus realiza o seu primeiro milagre, ou seja, manifesta pela primeira vez a sua glória, o seu poder divino. Este facto exprime bem a importância e a primazia do casamento aos olhos de Deus.
O casamento entre um homem e uma mulher e a família que com ele nasce correspondem a um projecto de Deus – o projecto que melhor garante a realização e a felicidade da pessoa humana bem como o futuro do mundo e da história.
Na primeira página da Bíblia, lemos: “Deus criou o ser humano à sua imagem; Ele os criou homem e mulher (macho e fêmea)”. Esta diferença que os atrai e complementa torna-os capazes de crescerem e se multiplicarem, encherem e dominarem a terra.
Num outro relato, também do livro do Génesis, é-nos dito que, pouco após ter criado o homem, Deus intuiu e desabafou: “Não é conveniente que o homem esteja só”. Sozinho, o homem sente-se inacabado, insatisfeito e infeliz. Para vencer a solidão do homem, para o homem se tornar completo, Deus cria e apresenta-lhe a mulher. E é tal o fascínio que a mulher exerce no homem que este se dispõe a deixar tudo, até o pai e mãe, para se unir a ela e com ela constituir uma comunidade de amor e de vida!

O casamento e a família são anteriores aos estados e às religiões. Em todas as sociedades e desde sempre, o casamento foi entendido como um projecto de vida comum assumido por um homem e uma mulher. De resto, a própria anatomia ou morfologia corporal apontam, de um modo inequívoco, nesse sentido.
Nos nossos tempos, alguns pretensos iluminados defendem o casamento homossexual em nome da liberdade e da igualdade. Esses iluminados parecem não saber ou gostariam que nós não soubéssemos que, antes de mais, há limites à verdadeira liberdade.
Quando me encontro numa encruzilhada de caminhos, eu sou livre de escolher aquele pelo qual quero seguir. Esta escolha, que constitui um exercício da minha liberdade, implica que eu aceite as características e os condicionalismos próprios desse caminho. Além disso, escolhendo aquele caminho, renuncio a seguir pelos outros, pois não posso pretender, em nome de uma mal entendida liberdade, seguir por todos ao mesmo tempo.
O mesmo vale em relação às opções de vida que fazemos ou decisões que tomamos. A liberdade que nos permite optar ou decidir neste ou naquele sentido leva-nos a renunciar às outras alternativas. Não se pode invocar a liberdade para reclamar uma coisa e, ao mesmo tempo, o seu contrário.
Por sua vez, a verdadeira igualdade só existe quando se respeitam e salvaguardam as diferenças. Não se pode falar de igualdade, quando se pretende tratar como igual aquilo que é realmente diferente. Caso contrário, nem se respeita a igualdade do que é igual nem a igualdade do que é diferente.
Assim, quem escolhe, no uso da sua liberdade, viver com uma pessoa do mesmo sexo, não pode pretender que a sua opção de vida seja considerada igual à daquele que escolhe viver com uma pessoa de sexo diferente. Ele pode reivindicar o direito a viver desse modo. E pode ter o direito a que seja respeitada a sua opção. O que ele não pode exigir é que a isso se chame casamento. Ao seguir por aquele caminho, que ele considera o melhor e o mais adequado para si, excluiu o outro caminho, o do casamento.
Insistir no casamento para os homossexuais, argumentando que se trata de um direito e de uma questão de igualdade, seria como alguém que inventa um novo pastel e querer registá-lo com o nome de um que já existe antes (por exemplo, pastel de Belém), argumentando que alguns dos seus ingredientes são os mesmos, mas esquecendo que outros elementos são manifestamente diferentes! O novo pastel pode até ser muito bom e ter muitos apreciadores. No entanto, deve ser registado com outro nome, em nome da liberdade, da igualdade e dos direitos dos outros! Algo de semelhante deve acontecer com as uniões homossexuais. Só assim se respeitará verdadeiramente, a liberdade, a igualdade e os direitos de todos – dos homossexuais e dos heterossexuais.

Quando se pretende contradizer a lógica do criador, quando se “atenta contra o fundamento biológico da diferença entre os sexos” (Bento XVI), todas as barbaridades são possíveis e, para aqueles a quem convêm, todas se afiguram como um direito e um sinal de modernidade. Trata-se, porém, de uma modernidade que afectará e comprometerá gravemente o futuro da sociedade.
Aqueles que mandam legislam contra o casamento e a família porque, muitos deles, não foram capazes de manter um casamento e uma família estáveis. Aprovando e facilitando o divórcio dão cobertura legal aos seus fracassos, para que passem a ser considerados como coisas normais e boas! Ou então legislam contra o casamento e a família para agradarem a certos grupos de pressão dos quais recebem, como contrapartida, votos e apoio político.
Nestes homens iluminados - mais arrogantes do que iluminados - a modernidade está bem casada com a falta de coerência e de honestidade!
Quem manda, se investisse mais no apoio à família e defendesse os valores que lhe são inerentes, não precisaria de investir tanto para tentar resolver os problemas sociais gerados pela crise da família (insucesso escolar, distúrbios psicológicos, toxicodependência, violência e criminalidade). Os senhores iluminados, se fosse tão iluminados como querem fazer crer, já teriam dado conta disso. Mas eles não querem dar-se conta, até porque lhes faltaria a humildade para o reconhecerem!

Jesus também foi convidado para o casamento.

  • Hoje, quem é que realmente convida e quer Jesus no seu casamento?
  • Mesmo aqueles que vão à Igreja no dia do seu casamento, quantos vão para se encontrarem efectivamente com Jesus e para o levarem de volta para as suas casas e para as suas vidas?
  • Mesmo entre os cristãos ditos praticantes, quantos estão dispostos a viver o seu casamento e a construir a sua família, seguindo o conselho de Maria: “Fazei tudo o que Ele vos disser?”
  • Quantos dão a Jesus a oportunidade de realizar milagres em suas casas, ou seja, de os iluminar com a sua palavra e os enriquecer com graças divinas?
  • Quem alimenta e fortalece o amor conjugal com o Vinho bom da Eucaristia?

Não esqueçamos: o nosso melhor bem é a família e esta é o melhor dom que temos para oferecer à sociedade! Ámen.

29 dezembro, 2009

Educar os filhos sem Deus é condená-los a uma vida sem sentido e sem esperança!

Os pais no dia do seu casamento (aqueles que se casaram pela Igreja ou seja, aqueles que celebraram o sacramento do matrimónio) e no dia do Baptismo dos filhos comprometeram-se a educá-los na fé, segundo a lei de Deus e da Igreja. Serão os pais fiéis ao compromisso assumido? E terão consciência de que na fidelidade a esse compromisso manifestam o seu grande amor (ou a falta dele) aos seus filhos?

Os pais conhecem com verdade Jesus de modo a podê-lo dar a conhecer com persuasão aos seus filhos?

  • Acreditam efectivamente nele de modo que lhes possam transmitir a fé com convicção
  • Vivem com coerência a sua fé de modo a serem autênticas testemunhas para eles
  • Rezam regularmente em família de modo a que os filhos possam aprender a rezar com eles?
  • Mandam os filhos à catequese e manifestam interesse necessário pelo seu aproveitamento?
  • Acompanham-nos na celebração da Eucaristia dominical de modo a que os filhos se insiram na vida da comunidade cristã?
Educar os filhos sem Deus
é condená-los a uma vida sem sentido e sem esperança.
Quando falta o sentido da vida e a esperança, os jovens, com facilidade e muita frequência, enveredam por caminhos perigosos, em que arruínam a sua vida, comprometem o seu futuro e roubam a paz aos seus próprios pais.
Quando chegam a estas situações, os pais, normalmente, culpam a sociedade. E, de facto, a sociedade, com os contra valores que propõe e defende, empurra e facilita nesse sentido. No entanto, devemos reconhecer que, quase sempre, os pais são os principais responsáveis. E são também os que pagam mais caro por isso.
Deus está definitivamente excluído da vida de muitas famílias e, consequentemente, a fé não é uma componente que interesse no processo educativo familiar. Por sua vez, o êxito da educação é avaliado segundo critérios pouco abrangentes.
  • Alguns pais consideram que estão a educar ou educaram bem, porque os seus filhos têm sucesso nos estudos ou nas actividades e iniciativas em que se envolvem.
  • Outros argumentam que nunca ninguém se chegou ao pé deles a fazer queixa dos filhos. Pudera, quais são os educadores ou os vizinhos que estão para arranjar problemas e conflitos com os pais?
  • Outros ainda que os filhos são muito amorosos e conseguem fazer tudo o que querem deles. Pudera, a maior parte dos pais fazem tudo e mais alguma coisa aos filhos para não os contrariarem nem terem chatices com eles!

Desde a minha perspectiva – e penso que é correcta e legítima - os pais só começam a saber se estão a educar bem os filhos, quando estes começam a fazer algumas renúncias ou algum sacrifício por eles. E só o sabem com certeza, quando os filhos, já adultos, os tomam a seu cuidado, na doença e na velhice. Sim, só no ocaso da vida, os pais ficam a saber se investiram bem na educação dos seus filhos.

Sem Deus, sem a luz da fé e a força do amor cristão, é difícil que os filhos se sintam disponíveis para retribuir aos pais o bem que estes lhes fizeram. Mas se os pais nada ou pouco fizeram para lhes transmitirem estes dons (da fé e da vida cristã), então também pouco ou nada podem esperar dos filhos quando deles precisarem! É o que está a acontecer a muitos pais. E é o que vai a acontecer à maioria.

Família, não tenhas vergonha nem consideres perda de tempo rezar em casa ou celebrar a fé com toda a comunidade cristã, na Eucaristia dominical!

Família, deixa que Deus te ajude a concretizar os teus sonhos e a realizar a tua missão!
Família, toma consciência de que, se és verdadeira família, tu és imagem de Deus e revelação do seu amor! Descobre e vive a grandeza do que és e a beleza da tua missão no mundo!
Família, nunca esqueças que os filhos são o maior dom de Deus e são a tua maior riqueza e, por sua vez, são o melhor dom que tens para dar à sociedade.
Família, tu precisas de ser família e não esqueças que em ti está o futuro da humanidade!
Ámen.

24 dezembro, 2009

O Natal é uma lição extraordinariamente bela da humildade de Deus!

Em Jesus, Deus faz-se próximo do homem e coloca-se ao ser serviço! Deus é feliz a amar os homens, a dar-se a eles, a salvá-los! Deus, com o seu modo de agir em relação a nós, ensina-nos que a grandeza e a felicidade está em amar e servir os outros.


Lição difícil de aprender e de viver.
Tanta vaidade e ostentação na Igreja de Jesus! Tanto poder e carreirismo e tão pouco espírito de serviço! Tanta ambição e ganância em vez de desprendimento e despojamento em relação aos bens deste mundo! Tanta visibilidade e aparências (nas vestes, nos títulos, nos privilégios) e tão pouca preocupação com o testemunho e a coerência de vida!

E mesmo nos simples fiéis, como é grande a tentação de dar nas vistas, de chamar a atenção, de procurar os aplausos dos homens e recompensas humanas, em vez de tudo fazerem movidos pela fé e por amor de Deus! Quando isto acontece, quando procedemos assim, é sinal de que Jesus ainda não nasceu no nosso coração, e ainda não fizemos a experiencia da presença e do amor de Deus na nossa vida!

Celebramos o Natal de Jesus
num tempo em que a sociedade tudo faz
para excluir Jesus do Natal.

  • Desde logo, a publicidade – e tanta publicidade se faz - em torno do Natal, sem uma única referência a Jesus. Fala-se do Natal, vende-se o Natal, promovem-se as pren-das, estimula-se o consumo, como se Jesus não estivesse na origem do Natal e não fosse a sua verdadeira razão de ser.
  • Para muitos, mesmo para muitos baptizados, o Natal fica reduzido às prendas, à árvore de Natal e ao Pai Natal. Maldito Pai Natal que se apropriou do Natal, usurpando o lugar a Jesus. Temos medo de dizer a verdade às crianças à cerca do Pai-Natal, mas não temos qualquer vergonha de lhes escondermos o Menino Jesus e a sua verdadeira mensagem! Se somos verdadeiros cristãos, e celebramos efectivamente o Natal de Jesus, não demos guarida ao Pai Natal nas nossas casas, não queremos aquele velho de barbas brancas a subir pela chaminé das nossas casas. Pelo contrário, metamo-lo na rua e declaremos-lhe guerra!
  • Uma sociedade sem Deus é uma sociedade que acaba por contradizer-se a si mesma, sendo incapaz de garantir os valores e os direitos que pretende defender em nome e em favor do homem, tais como a vida, o amor, a liber-dade, a justiça, a tolerância e a paz. Uma sociedade sem Deus pode garantir progresso e bem-estar (a alguns ou mesmo à maioria), mas condena os homens a viverem sem horizontes de futuro e sem esperança.

Nós celebramos o Natal de Jesus e consideramos Jesus como o grande Dom – o maior presente – de Deus à humanidade. Nós celebramos o Natal de Jesus e queremos que Jesus viva e actue em nós todos os dias. Queremos e deixamos que Jesus, através de nós, continue a revelar Deus, a amar os homens, a renovar o mundo, a conduzir a história para a sua plenitude. Nós queremos que o Natal seja de Jesus e que Jesus seja a luz e a salvação de todos os homens. Ámen.

22 novembro, 2009

"Vim a este mundo para dar testemunho da Verdade"

Jesus veio ao mundo dos homens para dar testemunho da verdade de Deus. A verdade de Deus é o amor, pois “Deus é amor”. Sim, Jesus veio a este mundo revelar a verdade do coração de Deus, testemunhar quanto Ele ama os homens e desvendar os seus desígnios a respeito do mundo e da história. O Deus amor sonhou e ama cada homem como seu filho e com todos os homens sonhou e quer formar uma única família.
“Vim para dar testemunho da verdade”:
  • A verdade de que Deus é Pai e ama imensamente o homem e que, por conseguinte, cada homem deve amá-lo com todo o seu coração, deixando “que Ele seja Deus na sua vida”. Dar a Deus a liberdade de ser Deus na sua vida, de manifestar nele todas as potencialidades do seu amor! Caso contrário, o homem não poderá experimentar a grandeza de Deus e nunca O chegará a conhecer verdadeiramente.
  • A verdade de que cada homem é um irmão e que, por isso mesmo, cada um deve amar o seu semelhante como a si mesmo, vendo nele um filho de Deus. Este amor fraterno é, antes de mais, doação e abertura do nosso coração e da nossa vida aos outros filhos de Deus. Depois, amor ao próximo é verdade e autenticidade, humildade e mansidão, justiça e solidariedade, misericórdia e perdão, transparência e pureza de coração e de intenções, unidade e paz.

Jesus, dando testemunho da verdade, torna possível o mundo novo - um mundo que corresponde aos sonhos de Deus e às aspirações dos homens. Na verdade, Jesus veio a este mundo para que o seu reino, que não é deste mundo, transforme o mundo dos homens, ou seja, para que o mundo do dos homens seja também reino de Deus! Um mundo que se constrói segundo a verdade de Deus e em que os homens vivem ao ritmo do coração de Deus. Esse é o mundo em que todos os homens, e não apenas alguns, se podem realizar como pessoas e atingir a sua plenitude humana.

“Tu és rei?” Jesus é rei mas não é como Pilatos. E Pilatos pode estar sossegado porque Jesus não vem para lhe roubar o lugar. Mas vem, isso sim, para lhe ensinar, a ele e aos Pilatos de todos os tempos, que ser rei (governar) é uma missão e o poder deve ser exercido com espírito de serviço, com verdade e amor.

  • O poder não confere a quem o detém o direito de o usar em seu benefício pessoal nem para impor aos outros as suas ideias ou pontos de vista, as suas crenças ou descrenças, os seus valores ou a falta deles. Pelo contrário, quem governa assume o dever de promover e garantir o bem comum de todos os cidadãos.
  • “Mandar” encerra mais deveres do que direitos, realidade ignorada pela maior parte dos que mandam. Muitas vezes, eles esquecem que a legitimidade do cargo não se esgota no facto de terem sido escolhidos para ele, mas que pressupõe também a aceitação das responsabilidades e o cumprimento dos deveres que lhe são inerentes. Quem procura o poder, se o faz por vocação, deve estar mais motivado pelo desejo de fazer bem aos outros do que por conseguir vantagens para si próprio,
  • Infelizmente, em todos os tempos e em todos os regimes políticos, com muita frequência, o poder anda de mãos dadas e convive com a mentira e a hipocrisia, com a arrogância e a arbitrariedade, com a ambição e a vaidade, com a ganância e a corrupção.
  • Infelizmente, muitos governantes usam o poder para atentar contra direitos e valores que deveriam proteger e salvaguardar. É ilegítimo o uso do poder em tais circunstância, mesmo que seja um poder obtido democraticamente.

- É, pois, ilegítimo usar o poder para legislar contra a vida, como no caso do aborto e da eutanásia. A vida humana é anterior e vale mais do que qualquer tipo de poder humano. Por isso mesmo, nenhum poder humano se pode sobrepor à vida humana, decidindo o termo da mesma.

- Usa-se ilegitimamente o poder contra a família, quando se protege e favorece mais o divórcio que o casamento, ou quando se quer dar o estatuto de casamento às uniões de pessoas do mesmo sexo. As pessoas tem direito a ser diferentes, mas não podem, ao mesmo tempo, reivindicar os direitos como se fossem iguais. Ou uma coisa ou outra! É uma questão de justiça e de igualdade!

- Usa-se ilegitimamente o poder, quando os governantes favorecem os interesses dos ricos e dos grandes grupos económicos, em detrimento dos trabalhadores e dos cidadãos comuns, aumentando as desigualdades e as injustiças sociais.

- Abusam do poder aqueles que procuram erradicar, em nome dos direitos de certas minorias, os sinais religiosos dos lugares públicos, como a recente determinação do tribunal europeu que exige a retirada dos crucifixos das escolas italianas. Mas será que os direitos das minorias valem mais do que os direitos das maiorias? Ou, pior ainda, as maiorias, sobretudo se são maiorias cristãs, não têm direitos? Não é legítimo nem aceitável que o fanatismo religioso de alguns ou a descrença de outros roubem a liberdade aos cristãos, como se a liberdade destes valesse menos do que a intolerância daqueles.

- Na mesma linha, abusam do poder aqueles que, em nome de uma laicidade mal entendida, implementam uma educação sem Deus, esquecendo por completo a dimensão espiritual das crianças e dos jovens. Deste modo limitam os seus horizontes existenciais e impedem-nos de um desenvolvimento integral e harmonioso.

Jesus ensina, com o seu exemplo, que ser rei é servir, amando as pessoas ao ponto de se sacrificar e dar a vida por elas. O bem dos cidadãos é que deve motivar e animar toda a acção governativa. Só assim se constrói uma sociedade justa e fraterna, um mundo de amor e de paz.

10 outubro, 2009

Ao ouvirem da boca de Jesus o que é necessário fazer para alcançar a vida eterna, os apóstolos concluem que a salvação não está ao alcance dos homens. Na verdade, a salvação não é algo que o homem possa conseguir só por si, apenas com o seu esforço. Pelo contrário, a salvação é, acima de tudo, um dom de Deus, só Deus pode conceder ao homem a vida eterna. Deus pode e quer. Por isso mesmo, Ele torna possível o que é impossível ao homem.
Deus torna possível, mas o homem tem de fazer a sua parte. A salvação tem de ser desejada e procurada pelo homem. O homem tem de aceitar e corresponder ao dom de Deus.
  • Num primeiro momento, e na resposta ao homem que O interpela, Jesus indica os mandamentos, enumerando aqueles que se referem ao próximo, como o caminho que conduz o homem à vida eterna.
  • Depois, lançando-lhe o desafio da perfeição, Jesus pede ao homem que abdique de todos os seus bens: “vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me”. O desprendimento não vale por si mesmo. Ele vale enquanto se traduz em partilha com os pobres. Além disso, a renúncia aos bens tem sentido na medida em que o homem fica mais livre para seguir Jesus.
Aquele homem sente-se perturbado com aquela exigência e considera que Jesus foi longe de mais. Ele, que antes tinha dito que cumpria os mandamentos desde a sua juventude, agora afasta-se de Jesus entristecido, porque tinha muitos bens e estava muito preso a eles.
  • Afinal, o homem não cumpria tão bem os mandamentos como ele pensava. Antes de mais, não cumpria o mandamento do amor a Deus, porque era aos bens e não a Deus que ele dava o primeiro lugar do seu coração e da sua vida. Depois, também não amava o seu próximo como devia, pois não estava disposto a partilhar com ele os seus bens.
  • Quem está agarrado aos bens materiais e confia excessivamente nas seguranças humanas, é alguém que também absolutiza as suas ideias e certezas, alguém que vive fechado na sua vida e vê tudo em função de si mesmo. Nestas circunstâncias, o homem perde a capacidade e a sensibilidade para amar o seu semelhante.

Contrariamente ao que pode aparecer à primeira vista, o “ser perfeito” não é algo mais para além do cumprimento dos mandamentos, mas sim a exigência de vivê-los de um modo radical. Não basta cumprir o “não” dos mandamentos: “não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não cometas fraude”. Amar não pode limitar-se ao não fazer mal às pessoas.
Pelo contrário, implica fazer algo de positivo por elas. Amar envolve e compromete necessariamente o coração do homem, passa por renunciar e a si mesmo e comunicar aos outros algo da sua vida e do que é.

“Quem pode então salvar-se?”
Tu estás efectivamente preocupado com isso?
Queres realmente salvar-te?
Para tal, estás disposto a dar a Deus a oportunidade de te salvar?
Mas antes: acreditas realmente na vida eterna?
Consegues sonhar para além dos limites do tempo e dos horizontes do mundo?
Vibras com a ideia de viver eternamente com Deus, usufruindo da plenitude da sua vida?
Aspiras a esse mundo de felicidade e fazes dele a meta última da tua caminhada existencial?

“Quem pode então salvar-se?”
Deus quer salvar-te. É o que Ele mais deseja para ti.
E tu queres que Ele te salve?
Mas, então, quem é que ocupa o centro do tua vida?
Qual é o tesouro no qual colocas o teu coração?
Qual é riqueza que tu persegues e o bem supremo pelo qual suspiras? És prisioneiro do teu egoísmo ou vives na liberdade do amor?
És suficientemente sábio para discernires aquilo que te proporciona uma felicidade ilusória e efémera daquilo que te garante uma felicidade consistente e eterna? E és suficiente-mente livre para escolheres a melhor parte?

Deixas que Deus te ame e, assim, te torne capaz de cumprires os seus mandamentos? Se não dás a Deus a liberdade de te amar, tiras-lhe a possibilidade de te salvar, pois só o amor de Deus salva o homem!
Para Deus tudo é possível e Deus quer fazer possível o que é impossível ao homem. Mas Deus, para o salvar, precisa do seu consentimento e da sua colaboração. E quando o homem se opõe a Deus, Deus fica impotente para fazer aquilo que mais pode e quer. Sim, o homem pode impedir Deus de o salvar!
Parece um paradoxo: Aquele que tudo pode, fica sem poder salvar o homem, porque o poder do egoísmo do homem pode anular, no seu caso pessoal, o poder do amor de Deus! Deus quer salvar o homem, mas o homem, exclusivamente por sua culpa, pode condenar-se!

“Que hei-de fazer?”
Tu já sabes o que deves fazer, qual a atitude que deves assumir perante Deus, qual o caminho que deves percorrer. Segue Jesus e sê coerente! Isto te basta!

HORÁRIOS - EUCARISTIA

Açores - Sexta- 18.00 h

A. Rica - Domingo - 14.30 h

HORÁRIOS DA CATEQUESE

2º ao 4º Ano - a definir

5º Ano - Sexta - 16.00 (Centro Pastoral)

6º ao 8º ano - Quarta - 16.00 (Centro Pastoral)

03 outubro, 2009

"...e os dois serão uma só carne"

Deus tem mesmo razão: “não é bom que o homem esteja só”. Não podíamos estar mais de acordo com Ele. Deus, porque é amor, sonhou e quis o homem como família. Coerente como é, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança.
Na verdade, sozinho e sem amor, sem alguém a quem amar e que o ame, o homem sente-se incompleto e infeliz. Inquieto e insatisfeito, o homem procura, por todo o lado e entre todos os seres vivos, a parte que lhe falta. E só sossega quando encontra alguém que lhe é verdadeiramente semelhante e, ao mesmo tempo, contém a diferença que o completa.

O homem descobre a razão de ser da sua vida e experimenta a alegria de viver, quando encontra alguém que é osso dos seus ossos e carne da sua carne. A esse ser, o homem chama mulher. A palavra hebraica revela que a mulher é a versão feminina do homem. Assim, ela é suficientemente semelhante e suficientemente diferente do homem. Por conseguinte, podem comunicar entre si e completam-se um ao outro.
O homem sente tal fascínio pela mulher (e o contrário vale de igual modo), o homem sente tão intensamente que não pode viver sem ela (e o mesmo experimenta a mulher em relação a ele), é tão extraordinário o amor que sentem um pelo outro que decidem viver um com o outro, ou melhor, viver um para o outro, unindo-se de tal modo que passam a ser uma só carne. Por outras palavras, dão origem a uma nova família.
O homem e a mulher só são felizes e só se realizam como pessoas numa relação de amor. E o amor conjugal é a primeira e originária forma de amor humano. De facto, só depois podem surgir as outras formas de amor: o amor paterno, o amor filial, o amor fraterno...
O amor conjugal é também o amor mais radical. Com efeito, o homem e a mulher deixam o pai e a mãe, para viverem o amor entre eles, dando origem a uma nova família (a um novo mundo de relações, de sonhos e de projectos existenciais).
Um amor assim, tão radical e tão intenso, é necessariamente um amor para sempre!

Jesus confirma que o matrimónio é um projecto e um compromisso para toda a vida. A autorização de divórcio, dada por Moisés, motivada pela dureza do coração dos homens, não invalida os desígnios de Deus sobre o casamento. O que Deus quis “no princípio da criação”, continua a ser ainda o que Deus quer e, por isso mesmo, mantém toda a sua validade.
A autorização/legalização do divórcio, bem como a frequência com que a ele se recorre não põem em causa a consistência do matrimónio validamente celebrado. Nunca um mal, pelo facto de ser legalizado, passa a ser bem. Nunca uma transgressão, pelo facto de ser praticada por muitos, pode ser legitimada por uma lei e, muito menos, considerada como um direito.

Mas, em que circunstância se pode falar de um casamento validamente celebrado, o único que é verdadeiramente casamento e, por isso mesmo, o único que é indissolúvel?
  • Antes de mais, é necessário o amor. Sem um autêntico amor entre os nubentes, falar de casamento é um absurdo.
  • Depois, é necessário que os nubentes conheçam e assumam as características e responsabilidades inerentes ao próprio casamento: a unidade e indissolubilidade, a procriação e a educação cristã dos filhos.
  • Em terceiro lugar, o consentimento deve ser plenamente livre, isto é, prestado sem qualquer tipo de coacção.

A realidade, aquela que nós conhecemos, diz-nos que, em muitos casos, os nubentes (às vezes os dois, outras apenas um deles) não satisfazem os requisitos mencionados.

  • Por vezes, falta o verdadeiro amor. Muitos, mais do que por razões do coração, são motivados pelo simples desejo ou mera simpatia (pela química que se gera entre eles).
  • Muitos negam, à partida, a unidade do matrimónio, ou seja, a fidelidade. Outros recusam-se a aceitar a indissolubilidade, considerando como algo de inconcebível e de insuportável viver toda a vida com a mesma mulher ou com o mesmo homem.
  • Há também quem exclua, positivamente e por mero egoísmo, a procriação e muitos mais são aqueles para quem a educação cristã dos filhos está completamente ausente dos seus horizontes matrimoniais.
  • E, embora menos frequentes do que no passado, ainda existem casos em que certas pressões familiares ou sociais se sobrepõem à vontade dos nubentes.

Quando se verifica uma destas situações, e basta que se verifique numa das partes, mesmo que seja celebrado na Basílica de São Pedro e na presença do Santo Padre, o casamento é inválido. Dizer que é inválido equivale a dizer que não houve casamento (nem contrato nem sacramento). A validade do casamento está efectivamente condicionada pelas disposições dos nubentes.

Assim, podemos afirmar que há muita gente que pensa estar casada pela Igreja e não o está, apesar de ter ido à igreja e aí se ter desenrolado toda a cerimónia religiosa própria do matrimónio.

Sendo assim, nestas circunstâncias, não deverá ser legítimo o divórcio? Nestes casos, nem sequer se pode falar de divórcio, uma vez que não houve casamento. É possível (e desejável), isso sim, requerer a declaração de nulidade do matrimónio.
Esta anulação pode ser declarada pelo tribunal eclesiástico, desde que se prove que, no momento do casamento, faltava algum dos requisitos fundamentais para a sua validade. Mais do que uma anulação do casamento (como se antes tivesse existido um casamento que é preciso anular), trata-se de declarar que nunca houve casamento.
Após esta declaração, cada uma das partes pode casar pela Igreja com um terceiro. Não se trata de um segundo casamento pela Igreja, mas do primeiro, uma vez que antes não houve casamento nem sacramento do matrimónio.

Para não haver tantos casamentos inválidos, separações e divórcios, é necessário e urgente que o casamento seja devidamente preparado e responsavelmente celebrado.
Como podemos concluir da primeira leitura, o casamento pressupõe uma procura intensa e recíproca, o reconhecimento da dignidade do outro e uma total entrega a ele.
O casamento só deve acontecer quando os dois sentem que não podem viver um sem o outro e sem viver um para o outro; quando o amor os leva a sonhar um projecto de vida comum para sempre.

Por sua vez, a Igreja deve levar os noivos a compreender melhor a grandeza e as implicações do casamento, bem como ser mais exigente na hora de abençoar a sua união. Não se pode dar cobertura a casamentos que se sabe, à partida, em razão das disposições e das intenções dos noivos, que são uma farsa e que vão ser um fracasso.

O casamento dos cristãos só é realmente casamento cristão, na medida em que os noivos o celebram à luz da fé e se dispõem a construir a sua respectiva família sobre a rocha firme da palavra de Deus.
Então, o casamento e a família serão o melhor espaço de realização e de felicidade do homem. Mais, a família será o melhor Céu na terra!